sábado, 27 de outubro de 2007

GENTE DE CURIAPEBA

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GENTE DE CURIAPEBA

Ovadia de Jesus Jambeiro, filha caçula do velho Clitério Cambaxirra de Jesus Malhado, o Cu de Fogo, e sua mulher Dona Marieta de Jesus Malhado e Hortelã Verde, gente pobre, porém decente, de Curiapeba, trabalhava na Pharmacia Simpatia, de seu Tolentino Novaes, em plena praça das Boiadas, que fica ali, ao lado do templo da Igreja Jesus Virá, Aleluia!.., em frente a outra igreja, a de Senhora Sant'Ana e namorava o jovem advogado Wasculatório Toneleiros Waluá, irmão do conceituado advogado e contista Walcírio Toneleiros Waluá, dos escritórios Polissílabo & Waluá Advogados. Wasculatório, muito católico e recém-chegado do Piauí, onde sua família se entregava ao criame de gado zebu, era um sujeitinho melancólico, desgracioso, amarelinho, metido à moralista e extremamente religioso, que não aceitava brincadeiras de mau gosto e não permanecia por muito tempo ao lado da gentinha desbocada, fedorenta e futriqueira do lugar. Sempre detestou o povinho de Curiapeba. A seu ver, a fina flor da canalha humana, que só sabe falar mal da vida alheia, da maldita guerra de Canudos de seu cismático líder religioso, para os quais o tal não passava de um santo, do qual falavam por horas e horas, quase que em êxtase, viviam enfiados nas macumbas, que proliferavam pelos sopés dos morros, no espiritismo, e em tantos outros passatempos, que ao ver de Wasculatório, não passavam de coisas que só servem para o embrutecimento do espírito.

Wasculatório conhecera Ovadia de Jesus Jambeiro, assim que chegou a Curiapeba, num dia de grande caganeira, após comer à tripa solta, em companhia do poeta andreense João Emílio Krauser, uma buchada de bode, na casa do padre Joaquim Torres Barrada (espanhol glutão, que se apaixonou perdidamente pelos guisados e docerias regionais). O rapaz foi à farmácia Simpatia, comprar um remédio e topou com a linda moça, que o olhou com enternecimento. Daí por diante, foi um passo e os dois começaram a se gostar. Achou a menina muito bonita: alta, morena clara, cabelos compridos, rosto bem delineado, olhos negros, rasgados, sonhadores, fartos seios e um traseiro (ai, delícia!) invejável... as más línguas professoravam, quando se referiam ao causídico recém chegado:

– Vejam só, o coroinha do padre Cosmorâmico Canindé até que sabe escolher mulher, apesar da feiúra e do seu beatismo. Olhem o rabo invejável da sua namorada!...

Ovadia, todas as manhas, quando ia para o trabalho, ao passar diante da venda da negra Ostoporina Suspirova, coçava a cabeça de um papagaio falador (terror da cidade), que a negra possuía e que ficava empoleirado em um pau, preso à parede e dizia, insultando a ave faladora:

– Papagaio! Pa pa gai o do cu pelado. Dá o pé, papagaio do cu pelado, dá o pé!...

O papagaio revirava os olhos, arrepiava-se todo e não dizia nada. As vezes, olhava a moça com olhos pidões e ficava muito excitado, num verdadeiro estado de êxtase, como que a agradecer a "Deus Nosso Senhor Jesus Cristo", por tanta atenção vinda de uma verdadeira formosura como aquela.

Um domingo, ao saírem da missa das 9, todos em roupa domingueira: Ovadia ao lado de Wasculatório, Dr. Walcírio ao lado de sua esposa, Dona Délia (uma caboverdeana muito viva, muito culta, agitadora cultural e política do lugar), Dr. Antonio Polissílabo Saraiva ao lado de Dona Clotilde e do filho Tavinho que, por sinal, ciceroneavam uma talzinha de Maninha de Matos Sampaio, socióloga arrogante, emproada e sabichona, que nessa época andava às voltas com uma pesquisa de mestrado que versava sobre o fenômeno das religiões no Brasil e o poeta Moisés Amaro Dalva, recém convertido ao catolicismo, que a convite de Wasculatório, foi conhecer Curiapeba, acompanhavam os grandes da terra, que se dirigiam para o centro da praça, ao lado do coreto, onde batiam um ligeiro papo e em seguida cada qual tomava a sua direção.

Ao passarem defronte da venda de Ostoporina Suspirova, Ovadia de Jesus Jambeiro, numa atitude arrebatadora, soltou-se do braço do namorado, caminhou com passos graciosos de mulher bonita ao encontro do papagaio que fazia suas acrobacias virando e revirando-se no pau da gaiola; bateu palmas, como que a chamar atenção de todos para a sua intimidade com o louro e disse, numa entonação acentuada:

– Papagaio! Papagaio. Dá o pé, dá o pé, loro!...

O bicho, que durante anos, nunca respondeu às indagações da moça, virou os olhinhos fosforescentes e perguntou, entortando graciosamente a cabeça para um lado:

– E o cu pelado?... E o cu pelado?...

Deixando a moça em palpos de aranha e os presentes, uns rindo-se à bandeira despregada e outros, caso do poeta Moisés Amaro Dalva, a se benzerem, diante da atitude pouco dócil e imoral da ave pornográfica.

Wasculatório, por sua vez, ficou que não sabia onde enfiar a cara e ao se informar a respeito da intimidade de sua namorada com o passarinho, pôs um ponto final no namoro, pois, como bom filho de "Maria, Mãe de Deus nosso senhor Jesus Cristo" e devoto fervoroso de Senhora Sant’Ana, não iria se casar com uma devassa, uma depravada como aquelazinha, que andava de bem e a manter diálogos pornográficos com uma ave tão chula, tão nojenta como aquela da negra Ostoporina Suspirova, que vivia ali na praça pública, na maior gandaia, acintosamente a insultar, a escandalizar, a enlamear toda a gente de bem, que por ali passava.

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UMA GAROTA LIBERAL E SEU AMANTE CIUMENTO

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UMA GAROTA LIBERAL E SEU AMANTE CIUMENTO

Oscoliosa Madeira Borborinho, de ancestral família portuguesa, chegada à Bahia em 1549, por ocasião do desembarque de Tomé de Sousa, fazendo parte daquelas 1000 pessoas destinadas à construção da cidade e cúmplice também pela fundação de Curiapeba, no século XVII, quando avançavam as boiadas pelas terras devolutas do sertão. Após o primário, ginásio e colegial, bem feitos na cidade natal, nos ginásios Castro Alves e Gregório de Matos, pretendia cursar Direito, em Salvador, influenciada que fora pelo Dr. Antonio Polissílabo Saraiva, ex-prefeito e advogado bem sucedido, por sinal, seu vizinho, ali na Rua Gonçalo Alves.

Oscoliosa era bonita e desde tenra idade desejou ser uma mulher diferente de suas conterrâneas. Sempre teve admiração pelas mulheres voluntariosas, gostava um bocado da mitológica Safo, da velha Grécia, de quem aprendera, no ginásio, fragmentos de seus poemas. Lera com sofreguidão alguns romances de George Sand, Adan Bede, de George Eliot em inglês e alguns poemas de Emily Dickinson, autoras de sua predileção, e não queria, de forma alguma, ser mais uma submissa, como sua mãe, a velha Maria Verônica Madeira Borborinho e tantas outras mulheres que viviam oprimidas por seus maridos. Tinha uma certa admiração por Maninha de Matos Sampaio, embora com reservas. Achava a autora de “Sertão: com destaque ao pássaro Sofrê e outros bichos vertebrados e invertebrados da Chapada Diamantina baiana”, muito conservadora, por que não dizer, mesmo quadrarona, que só se ocupava com as belezas da região, escrever seus livros caretas, com motivos regionais, viagens e seu casamento com Zito Borborema. Com ela, Oscoliosa Madeira Borborinho, não e não violão. Isso estava definitivamente fora de suas conjecturas. Queria formar-se em Direito e ser uma mulher livre, dona do seu nariz, sem que ninguém se imiscuísse em sua vida. E foi assim que começou a colecionar namorados a esmo, sem se preocupar com posição social, cor da pele e mesmo beleza. Queria apenas que o dito cujo fosse macho e bom de cama. Namorou vários coleguinhas de classe, bem como outros rapazes da cidade. Até que se enrabichou por Mirinho Boca de Fogo, irmão caçula de Tuntunca Muquirana, músico ligado à turma de Talinho Malino de Menezes e da porto-riquenha Berenice Orozco Villas, que tentou ditar normas no âmbito cultural de Curiapeba, o que a levou a se atritar por várias vezes com o rombudo Aristarco Vieira de Melo, majorengo enfezado, que tinha “Os Sertões” como trincheira, de onde vomitava seu veneno mortal, sendo admirado até à medula por uns e detestado mortalmente por outros.

O namoro de Oscoliosa com Mirinho Boca de Fogo fora a gota d’água e a família, de há muito escandalizada com as presepadas da filha, mais que depressa providenciou a ida da fulaninha para Salvador, isso após matricular a mesma na faculdade de Direito e arrumar acomodações na pensão de Madame Frufru Vailant, ali na Baixa dos Sapateiros, num velho casarão reformado e pintado com as cores da bandeira francesa (isso sem esquecer o indefectível galo gaulês estampado na fachada). Madame Frufru era metida (embora que decadente) e não aceitava (ou fingia) qualquer um no seu estabelecimento. Dava preferência às pessoas de fino trato, que pelo menos balbuciassem algumas palavras na “peregrina língua” de Voltaire (1694-1778) e Balzac (1799-1859). Não se cansava de dizer que “naquela noite dormira com Balzac nos braços”. A seu ver, eram os dois maiores escritores do mundo, bem maiores do que Ovídio, Dante, Cervantes, Tolstoi e tantos outros grandes, a quem dizia haver lido. Foi nesse ambiente que Oscoliosa passou os primeiros meses em Salvador. Até que, injuriada com Madame Frufru, por não lhe permitir dormir com seu namorado na pensão, bateu-se em retirada, indo morar numa república, perto da faculdade. Chegou a provocar, por essa época, os maiores tendepás entre os rapazes, que se atracavam no murro e na pernada, em disputas ferozes, como cães danados, pala posse da fêmea fatal. Oscoliosa achava uma tremenda graça em tudo aquilo. Sentia-se poderosa, vendo-se como objeto de disputa entre os homens que gostavam de mulher. Logo que passou a morar na república, a cada noite dormia com um homem diferente. Os pais, quando souberam do que vinha acontecendo, foram a Salvador e tentaram dissuadi-la daquela promiscuidade, inutilmente.

Em umas férias, voltou a Curiapeba e convenceu os pais a dobrarem-lhe a mesada e, ao retornar às aulas, na capital, levou consigo o namoradinho sertanejo, Mirinho Boca de Fogo (o apelido veio pelo rapaz ter os lábios fouveiros), para uma casinha previamente alugada, na periferia de Salvador.

Os primeiros dias de casa nova e amante correram às mil maravilhas, mas como Oscoliosa nunca respeitara namorado algum, assim que voltou a estudar, passava as noites com Mirinho na cama e as tardes, após os deveres da faculdade, saía com outros rapazes pelas ruas, aos beijos e abraços, isto quando não terminavam em um quarto de hotel barato do cais do porto.

Mirinho, sertanejo desconfiado, logo percebeu que os modos da moça não lhe agradavam. A coisa ficou mais palpável quando teve de se ausentar por um dia e, ao retornar, antes do tempo previsto, para sua surpresa, encontrou a amante com um certo Pederewiski, colega de faculdade, por quem Mirinho já havia notado ter ela, uma certa queda no que era correpondida. Boca de Fogo, desse dia em diante, passou a vigiar mais de perto os passos da moça e, por ocasião de uma festinha na república, percebeu que a estudante só dançava com o tal de Pederewiski, sempre de rostos coladinhos e a se beijarem, sem nem mesmo respeitarem a sua presença, Mirinho, muito queimado com o que estava acontecendo, chamou a atenção de Oscoliosa, que ignorou os protestos do rapaz. Engoliu no balcão uma dose dupla de vermute e abandonou a festa, arrastando o novo namorado pela mão, em direção ao cais do porto, sem dar a mínima satisfação ao sertanejo, que os acompanhou de longe e viu quando os dois entraram num hotel de terceira categoria. Mirinho aguardou os amantes por mais de duas horas, até que os dois, com ar de saciedade, desceram as escadas e seguiram a orla marítima, abraçados e a se beijarem, quem sabe, prelibando a separação, onde cada qual tomaria direção oposta.

Mirinho Boca de Fogo, munido de um porrete apanhado num monte de lenha de uma padaria, esperou que o casal tomasse distância do hotel e, no momento aprazado, atingiu Pederewiski com uma cacetada monumental, arrebentando-lhe dois dentes e quebrando-lhe um braço e o pau da venta. O Apolo baiano ficou irreconhecível, em petição de miséria, lavadinho em sangue, e Oscoliosa, por sua vez, apanhou a ponto de não levantar e, quando acordou, já dia alto, com a ajuda da polícia, tinha o olho direito vazado e parte do rosto e do ventre cheios de hematomas. Mirinho, por sua vez, entrou clandestinamente num velho cargueiro panamenho, que zarpava do cais da Bahia, só reaparecendo em Curiapeba vinte anos depois, já de cabelos brancos, cheio de tatuagens nos braços, nas pernas, nas costas, e com várias histórias marítimas a contar. Por essa época os pais de Oscoliosa haviam morrido e a fortuna da família, após ruidoso arrolamento e dívidas astronômicas a pagar, evaporou-se, e a ex-moça fogosa (agora totalmente desmoralizada), que despedaçava corações masculinos, não terminando a faculdade, era uma mulher feia, envelhecida precocemente e com o olho direito vazado, nada mais lembrando aquela beldade do passado.

Toca Filosófica, 07/02/2006.

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O VAQUEIRO E O DIABO

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O VAQUEIRO E O DIABO

Foi o pé do diabo! o diabo andou por aqui!
Álvares de Azevedo

Zé Coco chegou na feira de Curiapeba logo pela manhã. Comprou os trens que a mulher lhe havia encomendado, colocou-os no alforje, amarrou-o atrás da sela, na garupa do cavalo que ficou na entrada da cidade, e voltou para a feira, precisamente para a venda de Olegário Doca, para comer água, juntamente com outros colegas, amantes da branquinha.

Ao entrar na venda, encontrou-se com Cosme Theodoro, Toroco e Felipe Cana Doce. Tomaram a princípio, algumas lapadas de chica-boa e vinho de jurubeba. Cosme Theodoro comprou um litro de querosene, café em grãos, sal, sabão, anil, alguns metros de bulgariana e retirou-se, acompanhado por Toroco e Lunguinho Frajola, debaixo de protesto dos amigos, que diziam:

Véi Cosme, é cedo ainda, home, vamo come água. Num vai agora, não.

Felipe Cana Doce e Zé Coco que estavam já calibrados, viram Timóteo Morubichumbo, Zé Pevide e João Cachorro, todos já altamente alcoolizados e redobraram as doses de chica-boa, agora misturadas com rabo-de-galo, conhaque e outros destilados.

João Cachorro, que era muito arreliento, logo começou a dizer:

Aqui, nessa cabeça-de-porco não tem homem, pois se tivesse pulava em mim, pra ver com quantos paus se faz uma cangalha.

Zé Coço, arrogante, forte e soberbo que nem uma mula, tomou a provocação na unha e deu um trompaço tão grenado em João Cachorro, que o colocou por terra.

Aí, se pôs a contar garganta e a desacatar tudo e todos. Em pouco tempo estava sozinho, os amigos fugiram antes de serem envolvidos em suas arengas. Zé Coco batia na tábua dos peitos e dizia com toda arrogância do mundo:

— Aqui nessa desgraça não tem homem que enfrente Zé Coco. Zé Coco é macho e não maxixe. Do modo que estou enfrento até o capeta, se ele quiser ver que apareça. Vem capeta, se é que você existe. Vem, vem!

A Nega Valei-me tinha uma barraca de comida na feira e se encarregou de dar uma xícara de café sem açúcar ao valentão que, após sorver o amargoso líquido, melhorou um pouco. Sentou-se num banco que havia debaixo de um pé de umbuzeiro da praça, descansou um bom tempo, montou no seu cavalo e seguiu viagem.

No lusco-fusco da tarde, precisamente ao se aproximar de uma encruzilhada, perto do Rio das Voltas, pois ia para Malhadinha, começou a sentir um forte odor de enxofre queimando e logo em seguida o tropel de um animal em disparada. O capiau ficou atento e logo apareceu à sua frente um homem branco, de olhos azuis, muito bem apessoado e puxou conversa. Falava bem e após algumas palavras, retesou-se todo, passou a soltar fogo pelas ventas e perguntou:

Você sabe quem sou eu?

Sei não, sinhô - disse Zé Coco acovardado, num verdadeiro cagaço.

Pois fique sabendo que sou o diabo, a quem você chamou há pouco, na feira de Curiapeba.

Tesconjuro — disse o matuto.

O diabo fez uma careta para o sertanejo, deu um peido, acompanhado de uma gaitada debochada e evaporou-se mata adentro, juntamente com seu cavalo negro, deixando o vaqueiro perto de um ataque de nervos e ao mesmo tempo imaginando que o diabo não é tão feio como se diz.

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COMO SÃO ROQUE SE TORNOU PADROEIRO DE CURIAPEBA

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COMO SÃO ROQUE SE TORNOU PADROEIRO DE CURIAPEBA
(de uma estória popular)

Contam os mais velhos moradores de Curiapeba, que em 1897, quando ainda reboavam nos contrafortes da Serra de Itiúba os estrondos dos canhões do General Artur Oscar, destruidores do povoado de Canudos, que o padre Giracino Bembém de Arruda Real, filho de tradicional família fundadora da cidade, juntamente com o prefeito Ciríaco Fernandes Sobrinho, também de cepa abastada da redondeza, famosa pelos latifúndios e o farto criame de gado zebu, resolveram escolher para padroeiro da cidade, São Roque, pois, além de prestarem uma homenagem ao pai do prefeito, era, segundo os dois, um santo milagreiro e muito sério.

Assim munidos de tamanho ideal patriótico, enfeitaram a cidade para o evento, aproximante. Pintaram e embandeiraram a Praça Gregório de Matos, onde fica a igreja.

Ciríaco Sobrinho, muito católico, anteviu naquela cerimónia festeira um meio de recuperar o tempo perdido e se promover junto aos munícipes e a outras cidades vizinhas: afinal se aproximava o término do seu governo inexpressivo e o alcaide sonhava se eleger deputado, pelo seu Estado, nas futuras eleições.

Após discutirem o plano no Salão Dois de Julho da prefeitura, ficou acertado que depois dos panegíricos do prefeito e do juiz, seria a vez de o padre Ciracino derramar a sua oratória barroca em cima dos fiéis. Teria de fazer um discurso comovente, político e não se esquecer de mencionar por várias vezes o nome do santo padroeiro, a fim de ficar indelevelmente gravado na mente de cada fiel. Ciríaco Sobrinho temendo que o padre, mesmo sendo homem da sua confiança, não enfatizasse como deveria o nome do santo, propôs-lhe que cada vez que o nome fosse pronunciado, o vigário ganharia a importância de cinco mil-réis. O padre, ao despedir-se do alcaide, foi para casa com aquele dinheirame na cabeça e passou a pensar o discurso que teria de ser improvisado, na melhor maneira baiana, como era do seu costume. Na hora H, após o discurso vibrante, inflamado e patriótico de Ciríaco Sobrinho e do meritíssimo Dr. Armandino Cattelão da Silva Dourado, o padre todo paramentado, subiu ao púlpito, fez uma mesura, temperou a guela, esfregou as mãos e suspendeu a direita em forma de bom declamador e irrompeu com seu vozeirão rouco e pausado:

Meus filhos, bom povo de Curiapeba, como todos nós sabemos, hoje é dia de São Roque (pensou consigo mesmo, pingou cincão no meu bolso) e assim sendo, aqui estamos nesta manhã maravilhosa, para inaugurarmos a igreja de nossa cidade, cujo patrono é o milagroso São Roque (mais cinco = dez). São Roque andou com São José e Maria, mãe do Menino Jesus pelas terras da Palestina e cada vez que o nosso São Roque pegava no serrote, para aparar uma tábua ou uma viga, se ouvia o serrote de São Roque fazer: roque, roque, roque, roque!

E assim prosseguiu o padre Giracino Bembém de Arruda Real na sua oratória redundante e repetitiva até que o prefeito Ciríaco Fernandes Sobrinho, já vendendo azeite às canadas e ao mesmo tempo assustado com a fertilidade inventiva do vigário, levantou a mão a fim de que ele parasse o discurso que já estava se tornando quilométrico e caro em demasia para os dilapidados cofres públicos da pobre Curiapeba.

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O HOMEM QUE LIQÜIDOU UM TROVÃO A TIRO DE CLAVINOTE

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O HOMEM QUE LIQÜIDOU UM TROVÃO A TIRO DE CLAVINOTE

Delorido da Silva, uma espécie de capataz da Fazenda Ouricuri do Norte, num sábado, após a feira de Curiapeba, montou sua burra cardã e seguiu viagem rumo à fazenda. Após alguns goles de catilóia, deixou a cidade já ao anoitecer, com o brilho estranho, fantasmagórico, de uma meia-lua mofina, que anunciava chuva dentro de alguns instantes.

O tabaréu vestiu a capa boiadeira, que trazia na garupa da cela, a fim de proteger da chuva o clavinote que carregava para o caso de uma emergência. Já havia cortado muito sertão, quando uma chuva torrencial, com muitos ventos, raios, relâmpagos e trovões desabou sobre a terra, deixando o viajante apreensivo. A certo ponto da estrada, após um relâmpago incendiário ter cortado o céu de norte a sul, avistou a sua frente duas montanhas em forma de bola de neve - uma monumental, grandalhona, estúpida, e outra menorzinha - que tomavam quase toda a totalidade da estrada. O homem, ao se aproximar das inusitadas bolas, teve a impressão de não haver condição de passagem, pois a bola grande tomava mais da metade do caminho, e a menorzinha, por sua vez, não lhe permitia esgueirar-se pelo lado direito do terreno, que era esconso, despenhoso. Delorido da Silva, muito assustado, indagou, como se interrogasse uma pessoa:

– Quem vem lá? É de paz?...

Nenhuma resposta. Mas, a seu ver, as bolas passaram a se mover em sua direção. Teve mesmo a sensação de ter ouvido estas palavras saídas da boca de uma delas:

– Pega ele, pega ele!...

Delorido da Silva, que há muito já estava de cabelos arrepiados, não vacilou um só minuto, puxou o clavinote de debaixo da capa e atirou na bola menor, que produziu um forte estrondo, acompanhado de uma luz azulada, que jogou o homem, juntamente com a alimária, a alguns metros de distância, em cima de uns pés de unha-de-gato. Em seguida, após levantar-se todo enlameado por um barro vermelho, pegajento, apanhou a espingarda e cautelosamente aproximou-se da segunda bola, onde constatou, segundo suas conjecturas de matuto, tratar-se de um trovão caído e não explodido, que ao ser ferido pelas balas do clavinote sofreu a desintegração, deixando o homem horrorizado e ao mesmo tempo agradecido a São Roque e Senhora Sant'Ana, padroeiros do lugar, por não ter ele atirado logo de cara no trovão maior, de explosão fulminante, que por certo lhe teria acabado de uma vez por todas.

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O CORONEL DROMEDÁRIO CARMELINHO E O BARBEIRO ANACLETO PEREIRA SAMPAIO

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O CORONEL DROMEDÁRIO CARMELINHO E O BARBEIRO ANACLETO PEREIRA SAMPAIO

O coronel Dromedário Carmelinho, homem temido em toda a Curiapeba, fazia a barba, todas as manhãs, ali no número 11 da Praça das Boiadas, na Barbearia Sol a Pino, com Anacleto Pereira Sampaio, que era um dos melhores barbeiros da cidade. Freqüentava o seu estabelecimento há mais de cinco anos. Era freguês exigente, não respeitando ordem de chegada e queria sempre uma barba bem feita, que lhe deixasse a pele lisinha, sem a menor sombra de irritação. Anacleto se detinha um tempão sem fim, escanhoando aquela barba cinzenta, duríssima e muito serrada, daquele carão vermelho, balofo, que, diga-se de passagem, não lhe pagava tão bem assim, para o que exigia.

Num fim de ano, véspera de Natal, com a cidade abarrotada de gente, filhos dos coronéis do sisal e do diamante, que estudavam em Salvador, Feira de Santana, São Paulo e Rio de Janeiro, sem contar os turistas de outros estados e as vezes mesmo do exterior, que, devido às belezas da região. enchiam a cidade a qualquer época do ano, chovesse ou fizesse sol. Sempre ciceroneados por Maninha de Matos Sampaio, que aproveitava a oportunidade para fazer propaganda do seu novo livro: 'Sertão: com destaque ao pássaro Sofre e outros bichos vertebrados e invertebrados da Chapada Diamantina baiana, e aqueles barbudinhos temperamentais, enxeridos, de calcas frouxas e óculos fundo de garrafa da USP, que se metiam em tudo, com uma curiosidade visguenta, procurando registrar nos seus caderninhos ensebados, as coisas mais banais deste mundo. tais como urro de jegue, berro de vaca, trepada de cães, brigas de galos e canários da terra, pescaria de munzuá e cobós nas locas de pedra e tantas outras besteiras, características de gente que não conhece o interior.

Numa manhã ensolarada de sábado, logo no início da feira, chegou o coronel Dromedário Carmelinho, todo vestido de linho branco, o melhor “Cima”, um verdadeiro HJ inglês, coisa de gente da alta, confeccionados quando em Salvador, com Nania Porongatu, ou em Aracaju, com o mestre Afonso Vicente, alfaiates de sua preferência. Ao entrar na barbearia, notou que Anacleto escanhoava a barba vermelha de um gringão de olhos azuis, norueguês, dinamarquês, como é que vou saber?... O velho coronel mira o gringo com rabo de olho, sem nem mesmo se dignar ver que existiam mais duas pessoas sentadas, aguardando sua vez e diz, de maneira brusca, para o barbeiro:

- Anacleto, vou dar uma voltinha e logo venho para você me fazer a barba. Vê se desinfeta essa navalha e pincel. Não quero pegar lepra desses gringos nojentos, não!...

Pois não, coronel. Tem apenas duas pessoas esperando, logo que termine esses aí, espero que o senhor esteja presente para ser barbeado. Quanto à navalha e pincel, os seus estão guardados. São exclusivos.

O coronel saiu vendendo azeite às canadas e pensando consigo mesmo: 'nunca esperei por ninguém em minha vida. Porque esse sujeitinho insolente quer agora que eu espere para ser atendido... O certo é que voltou dali a, meia hora e ao entrar, viu que o Dr. Antonio Polissílabo Saraiva estava sendo atendido por Anacleto. Não podia dizer que não gostasse do Dr. Antonio. Afinal era uma pessoa que só sabia fazer o bem. Mas também não lhe era simpático. Esse advogadozinho andava defendendo causas dessa gentalha de merda e desmascarando de vez em quando poderosos da cidade. Lembrou-se do ruidoso processo envolvendo o pastor Genocídio Geronso Garrafino, não fazia muito e a família do velho Traumaturgo Alcandorado Varonil, quando o pastor tentou ludibriar os filhos do velho fanático religioso, e ficar com seu terreno, na Praça das Boiadas, onde tencionava construir a sede da igreja “Jesus Virá, Aleluia!...” Cumprimentou o Dr. Antonio e fez Anacleto ver que a sua paciência estava chegando ao fim:

– Anacleto, meu nego, quando é que você poderá fazer a minha barba?... Veja que já vim aqui duas vezes e você está sempre ocupado.

– Sente-se aí, coronel e logo que terminar de fazer a barba do Dr. Antonio, faço a sua.

– Anacleto, como você está careca de saber, não gosto de esperar nem mesmo para receber dinheiro, quanto mais para ser barbeado. Vou dar mais uma volta e ao retornar, quero que você faça a minha barba.

Assim que o coronel se retirou, entra o velho Dunga Rindidunga Polissílabo Saraiva, cumprimenta o barbeiro e o primo, Dr. Antonio. Senta-se e aguarda sua vez, trocando alguns dedos de prosa sobre política e a péssima administração do novo alcaide, Luiz Ignóbil Suíno dos Ovos Sujos, um desastrado, que levava a cidade ao caos.

Anacleto, temeroso do que o coronel seria capaz de aprontar, foi logo avisando ao velho Dunga:

– Seu Dunga, o coronel Dromedário já veio aqui duas vezes, se porventura ele chegar antes de terminara barba do Dr. Antonio, vou cortar a dele antes da sua. Posso?...

– Ora, ora, Anacleto, tudo bem... Conosco não tem enrosco.

Terminando a barba do Dr. Antonio e como nada do coronel, pediu que Dunga se sentasse na cadeira e começou a ensaboar a barba, quando entra o coronel, inimigo figadal de Dunga e vai logo dizendo:

– Anacleto, você quer vender a barbearia?...

– Por que, coronel?...

– Sempre que venho aqui você está ocupado.

– Se o senhor tivesse aguardado, já tinha chegado a sua vez, coronel.

– Vamos, faça preço nesta bilosca!...

– Minha barbearia não está a venda, coronel. Só tenho isto de onde posso tirar o pão de cada dia para meus filhos, homem de Deus. Como é que vou vender?...

– Se você fosse vender, quanto pediria por ela?...

Anacleto pára de escanhoar a barba do velho Dunga Rindidunga Polissílabo Saraiva, encara o coronel, enquanto amola a navalha e diz uma cifra astronômica para a época:

– Vinte mil réis, coronel.

O coronel, que tinha uma pequena maleta de couro de anta na mão, abre-a, puxa algumas pelegas emboloradas, encara o barbeiro, encolerizado e diz:

– Seu Anacleto, aqui estão cinqüenta mil réis. Portanto, uma vez e meia a mais do que você pediu por ela. De hoje em diante a barbearia é minha e não se fala mais nisso. Espero ser atendido aqui quando bem quiser, sem ter de aguardar por a ou b. Depois de mim, você poderá atender os seus clientes normais, de maneira que o lucro seja dividido ao meio. Ouviu?... Pense bem, nisso, meu rapaz...

Senta-se na cadeira, apalpa o revólver no coldre, fecha os olhos e entrega o pescoço à navalha do barbeiro, que desse dia em diante, mesmo contra a sua vontade, passa a ser barbeiro oficial do poderoso coronel Dromedário Carmelinho.

Toca Filosófica, 12/02/2006


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ESPINAFRINDA PEIXE D’ÁGUA VOLTA À CURIAPEBA, SUA TERRA NATAL, APÓS FORMAR-SE EM MESTRA-ESCOLA EM FACULDADES DO SUL


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ESPINAFRINDA PEIXE D’ÁGUA VOLTA
À CURIAPEBA, SUA TERRA NATAL,
APÓS FORMAR-SE EM MESTRA-ESCOLA
EM FACULDADES DO SUL

É o gado morrendo de fome e de sede
Judas Isgorogota

Após a seca periódica que constantemente assola o Nordeste brasileiro haver dizimado os roçados, secado os barreiros, matado o gado, os cabritos, os porcos, os cavalos e emagrecido assustadoramente os cães, gatos e homens. Chico Peixe d’Água passou a fazendinha Serrado nos cobres, isto é, vendeu-a para seu Lúcio Butinove a preço de banana, comprou malas, arrumou os trens e, num dia de sábado ensolarado, juntamente com a família numerosa, tomou um trem-de-ferro em Itiúba e se mandou para São Paulo. Espinafrinda Peixe d’Água, nessa, época, tinha apenas seis anos de idade e conservou para sempre um pedaço do seu chão de infância dentro de si. Sempre que os pais saudosos falavam de Curiapeba, a filha querida, na maioria das vezes, com lágrimas nos olhos, lembrava-se das galinhas, da cachorra Mimosa, dos pés de losna e cróton, que a mãe possuía numa gamela velha; do papagaio Tataco, dos bois mortos, das pessoas a se mudarem em direção a paragens melhores, onde as chuvas fossem mais abundantes. O certo é que a menina sempre dizia, fazendo coro ao restante dos familiares, que, um dia, quando Deus-Nosso-Senhor-Jesus-Cristo mandasse chuvas constantes para o sertão, voltariam definitivamente, todos, numa arribação, se não para a mesma fazendinha, hoje nas mãos de seu Lúcio Butinove, pelo menos para paragens por ali, de maneira que pudessem beber a água da terra natal e irem à feira de Curiapeba aos sábados.

A família a princípio fora morar num bairro pobre de São Paulo, onde logo todos passaram a trabalhar, primeiro os rapazes e o velho Chico, em uma construção. Com o passar do tempo, arrumaram coisa melhor em fábricas. Chico, foi contratado como cobrador de bonde da CMTC, onde se aposentou e, os três rapazes, um se tornou militar e os outros dois, Chico Filho e Zelão, conseguiram emprego no grande conglomerado Francisco Matarazzo. Na fabricação de cerâmica, em São Caetano do Sul. Quanto à menina, dedicou-se aos estudos. Excelente aluna, nunca repetiu um ano e, após concluir o colegial, no Grupo Saint-Hilaire, começou a trabalhar e a cursar a faculdade à noite e assim, com muito esforço e boa vontade, dentro de alguns anos estava formada e obtendo uma cadeira na mesma escola onde estudara. Espinafrinda era uma das professoras mais dedicadas da escola e não foi difícil conquistar o alto posto de diretora, posto esse que a enchia de orgulho. Pensava ela: “não cheguei aqui gratuitamente, afinal não passo de uma retirante que, se venceu na vida, foi à custa dos seus esforços”. Após a morte dos pais e a aposentadoria, como tinha se casado já há algum tempo com um rapaz também de Curiapeba, muito trabalhador, e com os dois filhos já senhores dos seus narizes, tendo algumas reservas na poupança, após 50 anos de São Paulo, resolveu ir a passeio à terra natal. Ficaram deslumbrados ao rever Curiapeba, que continuava quase a mesma. O mesmo povinho atrasado, futriqueiro de sempre, que se detinha por horas e horas a contar estórias da guerra de Canudos, de Lampião, Padim Ciço; sonhos mirabolantes, pescarias, caçadas de onça, etc. A pracinha vivia cheia de moleques barrigudos, amarelinhos, lombriguentos; sempre disputando peladas, outras vezes de gaiolas nas mãos aconchavando brigas de canários-da-terra, banhos nos rios e outras diversões.

O prefeito Luiz Ignóbil Suíno dos Ovos Sujos, um homenzinho medíocre, um verdadeiro bufão, nada fazia em prol do seu povo, pelo contrário, extorquia a precária verba pública em benefício próprio e de seus apaniguados. Enriquecera de um dia para outro, sendo dono das melhores fazendas da região, perdendo apenas para uns poucos privilegiados, que já nasceram em berço de ouro.

Curiapeba, após o implante do Serviço de Colonização peio Governo Federal, que irrigou a região e a transformou em um pólo agrícola, distribuidor das melhores uvas do Brasil e hortifrutigranjeiros por Salvador, Feira de Santana, Aracaju e outras cidades do sertão, teve um certo destaque econômico, destaque esse que pouco contribuiu para uma maior evolução civilizatória do povo. Mesmo assim, Espinafrinda não vacilou em adquirir uma fazendinha, que estava à venda, nas margens do rio Canjica. Queria contribuir, a seu modo, com o seu quinhão para o desenvolvimento de sua terra e de sua gente. Adquiriu ainda um terreno no povoado de Comercinho, onde construiu uma ótima casa. A princípio, com seu exemplo, tentou mudar os costumes primitivos do povo. Suas roças serviam de modelo, eram as melhores; passou a estimular o povo a melhorar de vida, dentro dos seus próprios recursos. Ensinou a adubação orgânica, aproveitando o bagaço de cana dos engenhos e o farto esterco animal que se perdia pelos currais. Forçou o prefeito Luiz Ignóbil Suíno dos Ovos Sujos a limpar o mato que cobria toda a praça do Comercinho, onde o povo defecava a céu aberto. Induziu-o a consertar as pontes do rio e as cercas do cemitério que serviam de combustão para as fogueiras das festas juninas. Enfim, com seus modos agressivos, porém educacionais, mudou substancialmente a cara do vilarejo. Seu nome chegou mesmo a ser cogitado para disputar uma cadeira na Câmara de Curiapeba nas próximas eleições. Espinafrinda brigava por melhorias para a sua vila e foi dessa forma que conseguiu, junto aos poderes públicos, construir banheiros na pracinha do Comercinho, a fim de que o povo usasse os mesmos e não continuasse a contaminar as águas do rio Canjica com fezes e outros detritos nocivos à saúde. Isto fora o pomo da discordia que fez com que os moradores se revoltassem contra Espinafrinda, não aceitando os banheiros públicos, que eram depredados durante a noite. Preferiam defecar no mato. A mulher, com seu ar de líder, enfrentou os desobedientes, aconselhando-os sobre os malefícios dos detritos que contaminavam as águas, a lavoura, etc. O certo é que o povo se uniu contra ela, movendo uma guerra surda, carregada de ironias, risinhos e chacotas, ditos indiretamente. Espinafrinda era evitada por todos. A mulher sentia, pelas costas, sempre um sorriso de mofa. Todos os engenhos que a princípio lhe deram de graça o bagaço de cana e o esterco dos currais, passaram a negar-lhe, nem mesmo vender aceitavam. Voltaram a incinerá-los, como faziam no pas­sado, antes da chegada de Espinafrinda. A mulher, ao notar a reação do povo contra ela, começou a definhar e a sofrer com a ignorância dos seus conterrâneos a quem só procurou fazer o bem. Ficou tão desmoralizada, a ponto de não conseguir comprador para seus produtos agrícolas, antes disputadíssimos por todos. Agora os comprado­res fugiam dela como o diabo da cruz. Até que um dia, após o jantar, sentou-se no sofá da sala e derreteu-se em copiosas lágrimas. Daí por diante, passou a sofrer intensamente, vivia sempre chorando, perdeu a vontade de viver, não se alimentava e sofria de uma fraqueza brutal. Fizera vários exames com renomados médicos de Salvador, Jacobina, Miguel Calmon e Aracaju, que não descobriam nenhuma anomalia em seu estado de saúde. Mesmo assim Espinafrinda definhava a olhos vistos e, às portas da morte, consultau-se com uma pisicóloga em Salvador, que lhe aconselhou a retornar a São Paulo. Segundo a psicóloga, tratava-se de banzo, sim, banzo. Aquela mesma doença que dizimava os negros dos navios negreiros, no período da colonização do Brasil. A mulher mais que depressa vendeu o que possuía em Curiapeba por menos do que valia e retornou a São Paulo, onde, dentro de poucos meses, sempre acompanhada por bons médicos, recuperou as forças e passou a gozar a vida em toda a sua plenitude, como no passado.