sábado, 27 de outubro de 2007

O HOMEM QUE LIQÜIDOU UM TROVÃO A TIRO DE CLAVINOTE

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O HOMEM QUE LIQÜIDOU UM TROVÃO A TIRO DE CLAVINOTE

Delorido da Silva, uma espécie de capataz da Fazenda Ouricuri do Norte, num sábado, após a feira de Curiapeba, montou sua burra cardã e seguiu viagem rumo à fazenda. Após alguns goles de catilóia, deixou a cidade já ao anoitecer, com o brilho estranho, fantasmagórico, de uma meia-lua mofina, que anunciava chuva dentro de alguns instantes.

O tabaréu vestiu a capa boiadeira, que trazia na garupa da cela, a fim de proteger da chuva o clavinote que carregava para o caso de uma emergência. Já havia cortado muito sertão, quando uma chuva torrencial, com muitos ventos, raios, relâmpagos e trovões desabou sobre a terra, deixando o viajante apreensivo. A certo ponto da estrada, após um relâmpago incendiário ter cortado o céu de norte a sul, avistou a sua frente duas montanhas em forma de bola de neve - uma monumental, grandalhona, estúpida, e outra menorzinha - que tomavam quase toda a totalidade da estrada. O homem, ao se aproximar das inusitadas bolas, teve a impressão de não haver condição de passagem, pois a bola grande tomava mais da metade do caminho, e a menorzinha, por sua vez, não lhe permitia esgueirar-se pelo lado direito do terreno, que era esconso, despenhoso. Delorido da Silva, muito assustado, indagou, como se interrogasse uma pessoa:

– Quem vem lá? É de paz?...

Nenhuma resposta. Mas, a seu ver, as bolas passaram a se mover em sua direção. Teve mesmo a sensação de ter ouvido estas palavras saídas da boca de uma delas:

– Pega ele, pega ele!...

Delorido da Silva, que há muito já estava de cabelos arrepiados, não vacilou um só minuto, puxou o clavinote de debaixo da capa e atirou na bola menor, que produziu um forte estrondo, acompanhado de uma luz azulada, que jogou o homem, juntamente com a alimária, a alguns metros de distância, em cima de uns pés de unha-de-gato. Em seguida, após levantar-se todo enlameado por um barro vermelho, pegajento, apanhou a espingarda e cautelosamente aproximou-se da segunda bola, onde constatou, segundo suas conjecturas de matuto, tratar-se de um trovão caído e não explodido, que ao ser ferido pelas balas do clavinote sofreu a desintegração, deixando o homem horrorizado e ao mesmo tempo agradecido a São Roque e Senhora Sant'Ana, padroeiros do lugar, por não ter ele atirado logo de cara no trovão maior, de explosão fulminante, que por certo lhe teria acabado de uma vez por todas.

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O CORONEL DROMEDÁRIO CARMELINHO E O BARBEIRO ANACLETO PEREIRA SAMPAIO

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O CORONEL DROMEDÁRIO CARMELINHO E O BARBEIRO ANACLETO PEREIRA SAMPAIO

O coronel Dromedário Carmelinho, homem temido em toda a Curiapeba, fazia a barba, todas as manhãs, ali no número 11 da Praça das Boiadas, na Barbearia Sol a Pino, com Anacleto Pereira Sampaio, que era um dos melhores barbeiros da cidade. Freqüentava o seu estabelecimento há mais de cinco anos. Era freguês exigente, não respeitando ordem de chegada e queria sempre uma barba bem feita, que lhe deixasse a pele lisinha, sem a menor sombra de irritação. Anacleto se detinha um tempão sem fim, escanhoando aquela barba cinzenta, duríssima e muito serrada, daquele carão vermelho, balofo, que, diga-se de passagem, não lhe pagava tão bem assim, para o que exigia.

Num fim de ano, véspera de Natal, com a cidade abarrotada de gente, filhos dos coronéis do sisal e do diamante, que estudavam em Salvador, Feira de Santana, São Paulo e Rio de Janeiro, sem contar os turistas de outros estados e as vezes mesmo do exterior, que, devido às belezas da região. enchiam a cidade a qualquer época do ano, chovesse ou fizesse sol. Sempre ciceroneados por Maninha de Matos Sampaio, que aproveitava a oportunidade para fazer propaganda do seu novo livro: 'Sertão: com destaque ao pássaro Sofre e outros bichos vertebrados e invertebrados da Chapada Diamantina baiana, e aqueles barbudinhos temperamentais, enxeridos, de calcas frouxas e óculos fundo de garrafa da USP, que se metiam em tudo, com uma curiosidade visguenta, procurando registrar nos seus caderninhos ensebados, as coisas mais banais deste mundo. tais como urro de jegue, berro de vaca, trepada de cães, brigas de galos e canários da terra, pescaria de munzuá e cobós nas locas de pedra e tantas outras besteiras, características de gente que não conhece o interior.

Numa manhã ensolarada de sábado, logo no início da feira, chegou o coronel Dromedário Carmelinho, todo vestido de linho branco, o melhor “Cima”, um verdadeiro HJ inglês, coisa de gente da alta, confeccionados quando em Salvador, com Nania Porongatu, ou em Aracaju, com o mestre Afonso Vicente, alfaiates de sua preferência. Ao entrar na barbearia, notou que Anacleto escanhoava a barba vermelha de um gringão de olhos azuis, norueguês, dinamarquês, como é que vou saber?... O velho coronel mira o gringo com rabo de olho, sem nem mesmo se dignar ver que existiam mais duas pessoas sentadas, aguardando sua vez e diz, de maneira brusca, para o barbeiro:

- Anacleto, vou dar uma voltinha e logo venho para você me fazer a barba. Vê se desinfeta essa navalha e pincel. Não quero pegar lepra desses gringos nojentos, não!...

Pois não, coronel. Tem apenas duas pessoas esperando, logo que termine esses aí, espero que o senhor esteja presente para ser barbeado. Quanto à navalha e pincel, os seus estão guardados. São exclusivos.

O coronel saiu vendendo azeite às canadas e pensando consigo mesmo: 'nunca esperei por ninguém em minha vida. Porque esse sujeitinho insolente quer agora que eu espere para ser atendido... O certo é que voltou dali a, meia hora e ao entrar, viu que o Dr. Antonio Polissílabo Saraiva estava sendo atendido por Anacleto. Não podia dizer que não gostasse do Dr. Antonio. Afinal era uma pessoa que só sabia fazer o bem. Mas também não lhe era simpático. Esse advogadozinho andava defendendo causas dessa gentalha de merda e desmascarando de vez em quando poderosos da cidade. Lembrou-se do ruidoso processo envolvendo o pastor Genocídio Geronso Garrafino, não fazia muito e a família do velho Traumaturgo Alcandorado Varonil, quando o pastor tentou ludibriar os filhos do velho fanático religioso, e ficar com seu terreno, na Praça das Boiadas, onde tencionava construir a sede da igreja “Jesus Virá, Aleluia!...” Cumprimentou o Dr. Antonio e fez Anacleto ver que a sua paciência estava chegando ao fim:

– Anacleto, meu nego, quando é que você poderá fazer a minha barba?... Veja que já vim aqui duas vezes e você está sempre ocupado.

– Sente-se aí, coronel e logo que terminar de fazer a barba do Dr. Antonio, faço a sua.

– Anacleto, como você está careca de saber, não gosto de esperar nem mesmo para receber dinheiro, quanto mais para ser barbeado. Vou dar mais uma volta e ao retornar, quero que você faça a minha barba.

Assim que o coronel se retirou, entra o velho Dunga Rindidunga Polissílabo Saraiva, cumprimenta o barbeiro e o primo, Dr. Antonio. Senta-se e aguarda sua vez, trocando alguns dedos de prosa sobre política e a péssima administração do novo alcaide, Luiz Ignóbil Suíno dos Ovos Sujos, um desastrado, que levava a cidade ao caos.

Anacleto, temeroso do que o coronel seria capaz de aprontar, foi logo avisando ao velho Dunga:

– Seu Dunga, o coronel Dromedário já veio aqui duas vezes, se porventura ele chegar antes de terminara barba do Dr. Antonio, vou cortar a dele antes da sua. Posso?...

– Ora, ora, Anacleto, tudo bem... Conosco não tem enrosco.

Terminando a barba do Dr. Antonio e como nada do coronel, pediu que Dunga se sentasse na cadeira e começou a ensaboar a barba, quando entra o coronel, inimigo figadal de Dunga e vai logo dizendo:

– Anacleto, você quer vender a barbearia?...

– Por que, coronel?...

– Sempre que venho aqui você está ocupado.

– Se o senhor tivesse aguardado, já tinha chegado a sua vez, coronel.

– Vamos, faça preço nesta bilosca!...

– Minha barbearia não está a venda, coronel. Só tenho isto de onde posso tirar o pão de cada dia para meus filhos, homem de Deus. Como é que vou vender?...

– Se você fosse vender, quanto pediria por ela?...

Anacleto pára de escanhoar a barba do velho Dunga Rindidunga Polissílabo Saraiva, encara o coronel, enquanto amola a navalha e diz uma cifra astronômica para a época:

– Vinte mil réis, coronel.

O coronel, que tinha uma pequena maleta de couro de anta na mão, abre-a, puxa algumas pelegas emboloradas, encara o barbeiro, encolerizado e diz:

– Seu Anacleto, aqui estão cinqüenta mil réis. Portanto, uma vez e meia a mais do que você pediu por ela. De hoje em diante a barbearia é minha e não se fala mais nisso. Espero ser atendido aqui quando bem quiser, sem ter de aguardar por a ou b. Depois de mim, você poderá atender os seus clientes normais, de maneira que o lucro seja dividido ao meio. Ouviu?... Pense bem, nisso, meu rapaz...

Senta-se na cadeira, apalpa o revólver no coldre, fecha os olhos e entrega o pescoço à navalha do barbeiro, que desse dia em diante, mesmo contra a sua vontade, passa a ser barbeiro oficial do poderoso coronel Dromedário Carmelinho.

Toca Filosófica, 12/02/2006


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ESPINAFRINDA PEIXE D’ÁGUA VOLTA À CURIAPEBA, SUA TERRA NATAL, APÓS FORMAR-SE EM MESTRA-ESCOLA EM FACULDADES DO SUL


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ESPINAFRINDA PEIXE D’ÁGUA VOLTA
À CURIAPEBA, SUA TERRA NATAL,
APÓS FORMAR-SE EM MESTRA-ESCOLA
EM FACULDADES DO SUL

É o gado morrendo de fome e de sede
Judas Isgorogota

Após a seca periódica que constantemente assola o Nordeste brasileiro haver dizimado os roçados, secado os barreiros, matado o gado, os cabritos, os porcos, os cavalos e emagrecido assustadoramente os cães, gatos e homens. Chico Peixe d’Água passou a fazendinha Serrado nos cobres, isto é, vendeu-a para seu Lúcio Butinove a preço de banana, comprou malas, arrumou os trens e, num dia de sábado ensolarado, juntamente com a família numerosa, tomou um trem-de-ferro em Itiúba e se mandou para São Paulo. Espinafrinda Peixe d’Água, nessa, época, tinha apenas seis anos de idade e conservou para sempre um pedaço do seu chão de infância dentro de si. Sempre que os pais saudosos falavam de Curiapeba, a filha querida, na maioria das vezes, com lágrimas nos olhos, lembrava-se das galinhas, da cachorra Mimosa, dos pés de losna e cróton, que a mãe possuía numa gamela velha; do papagaio Tataco, dos bois mortos, das pessoas a se mudarem em direção a paragens melhores, onde as chuvas fossem mais abundantes. O certo é que a menina sempre dizia, fazendo coro ao restante dos familiares, que, um dia, quando Deus-Nosso-Senhor-Jesus-Cristo mandasse chuvas constantes para o sertão, voltariam definitivamente, todos, numa arribação, se não para a mesma fazendinha, hoje nas mãos de seu Lúcio Butinove, pelo menos para paragens por ali, de maneira que pudessem beber a água da terra natal e irem à feira de Curiapeba aos sábados.

A família a princípio fora morar num bairro pobre de São Paulo, onde logo todos passaram a trabalhar, primeiro os rapazes e o velho Chico, em uma construção. Com o passar do tempo, arrumaram coisa melhor em fábricas. Chico, foi contratado como cobrador de bonde da CMTC, onde se aposentou e, os três rapazes, um se tornou militar e os outros dois, Chico Filho e Zelão, conseguiram emprego no grande conglomerado Francisco Matarazzo. Na fabricação de cerâmica, em São Caetano do Sul. Quanto à menina, dedicou-se aos estudos. Excelente aluna, nunca repetiu um ano e, após concluir o colegial, no Grupo Saint-Hilaire, começou a trabalhar e a cursar a faculdade à noite e assim, com muito esforço e boa vontade, dentro de alguns anos estava formada e obtendo uma cadeira na mesma escola onde estudara. Espinafrinda era uma das professoras mais dedicadas da escola e não foi difícil conquistar o alto posto de diretora, posto esse que a enchia de orgulho. Pensava ela: “não cheguei aqui gratuitamente, afinal não passo de uma retirante que, se venceu na vida, foi à custa dos seus esforços”. Após a morte dos pais e a aposentadoria, como tinha se casado já há algum tempo com um rapaz também de Curiapeba, muito trabalhador, e com os dois filhos já senhores dos seus narizes, tendo algumas reservas na poupança, após 50 anos de São Paulo, resolveu ir a passeio à terra natal. Ficaram deslumbrados ao rever Curiapeba, que continuava quase a mesma. O mesmo povinho atrasado, futriqueiro de sempre, que se detinha por horas e horas a contar estórias da guerra de Canudos, de Lampião, Padim Ciço; sonhos mirabolantes, pescarias, caçadas de onça, etc. A pracinha vivia cheia de moleques barrigudos, amarelinhos, lombriguentos; sempre disputando peladas, outras vezes de gaiolas nas mãos aconchavando brigas de canários-da-terra, banhos nos rios e outras diversões.

O prefeito Luiz Ignóbil Suíno dos Ovos Sujos, um homenzinho medíocre, um verdadeiro bufão, nada fazia em prol do seu povo, pelo contrário, extorquia a precária verba pública em benefício próprio e de seus apaniguados. Enriquecera de um dia para outro, sendo dono das melhores fazendas da região, perdendo apenas para uns poucos privilegiados, que já nasceram em berço de ouro.

Curiapeba, após o implante do Serviço de Colonização peio Governo Federal, que irrigou a região e a transformou em um pólo agrícola, distribuidor das melhores uvas do Brasil e hortifrutigranjeiros por Salvador, Feira de Santana, Aracaju e outras cidades do sertão, teve um certo destaque econômico, destaque esse que pouco contribuiu para uma maior evolução civilizatória do povo. Mesmo assim, Espinafrinda não vacilou em adquirir uma fazendinha, que estava à venda, nas margens do rio Canjica. Queria contribuir, a seu modo, com o seu quinhão para o desenvolvimento de sua terra e de sua gente. Adquiriu ainda um terreno no povoado de Comercinho, onde construiu uma ótima casa. A princípio, com seu exemplo, tentou mudar os costumes primitivos do povo. Suas roças serviam de modelo, eram as melhores; passou a estimular o povo a melhorar de vida, dentro dos seus próprios recursos. Ensinou a adubação orgânica, aproveitando o bagaço de cana dos engenhos e o farto esterco animal que se perdia pelos currais. Forçou o prefeito Luiz Ignóbil Suíno dos Ovos Sujos a limpar o mato que cobria toda a praça do Comercinho, onde o povo defecava a céu aberto. Induziu-o a consertar as pontes do rio e as cercas do cemitério que serviam de combustão para as fogueiras das festas juninas. Enfim, com seus modos agressivos, porém educacionais, mudou substancialmente a cara do vilarejo. Seu nome chegou mesmo a ser cogitado para disputar uma cadeira na Câmara de Curiapeba nas próximas eleições. Espinafrinda brigava por melhorias para a sua vila e foi dessa forma que conseguiu, junto aos poderes públicos, construir banheiros na pracinha do Comercinho, a fim de que o povo usasse os mesmos e não continuasse a contaminar as águas do rio Canjica com fezes e outros detritos nocivos à saúde. Isto fora o pomo da discordia que fez com que os moradores se revoltassem contra Espinafrinda, não aceitando os banheiros públicos, que eram depredados durante a noite. Preferiam defecar no mato. A mulher, com seu ar de líder, enfrentou os desobedientes, aconselhando-os sobre os malefícios dos detritos que contaminavam as águas, a lavoura, etc. O certo é que o povo se uniu contra ela, movendo uma guerra surda, carregada de ironias, risinhos e chacotas, ditos indiretamente. Espinafrinda era evitada por todos. A mulher sentia, pelas costas, sempre um sorriso de mofa. Todos os engenhos que a princípio lhe deram de graça o bagaço de cana e o esterco dos currais, passaram a negar-lhe, nem mesmo vender aceitavam. Voltaram a incinerá-los, como faziam no pas­sado, antes da chegada de Espinafrinda. A mulher, ao notar a reação do povo contra ela, começou a definhar e a sofrer com a ignorância dos seus conterrâneos a quem só procurou fazer o bem. Ficou tão desmoralizada, a ponto de não conseguir comprador para seus produtos agrícolas, antes disputadíssimos por todos. Agora os comprado­res fugiam dela como o diabo da cruz. Até que um dia, após o jantar, sentou-se no sofá da sala e derreteu-se em copiosas lágrimas. Daí por diante, passou a sofrer intensamente, vivia sempre chorando, perdeu a vontade de viver, não se alimentava e sofria de uma fraqueza brutal. Fizera vários exames com renomados médicos de Salvador, Jacobina, Miguel Calmon e Aracaju, que não descobriam nenhuma anomalia em seu estado de saúde. Mesmo assim Espinafrinda definhava a olhos vistos e, às portas da morte, consultau-se com uma pisicóloga em Salvador, que lhe aconselhou a retornar a São Paulo. Segundo a psicóloga, tratava-se de banzo, sim, banzo. Aquela mesma doença que dizimava os negros dos navios negreiros, no período da colonização do Brasil. A mulher mais que depressa vendeu o que possuía em Curiapeba por menos do que valia e retornou a São Paulo, onde, dentro de poucos meses, sempre acompanhada por bons médicos, recuperou as forças e passou a gozar a vida em toda a sua plenitude, como no passado.

A FATÍDICA NOTÍCIA LEVADA POR JOÃO CACHORRO...

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A FATÍDICA NOTÍCIA LEVADA POR JOÃO CACHORRO
DEIXA OS COLEGAS DE VÉI CORME THEOBALDO
PROSTRADOS NA FEIRA DE CURIAPEBA
(OU O NOVO LIVRO DE MANINHA DE MATOS SAMPAIO)

“Cachaça é moça bonita”
Folclore mineiro

João Cachorro foi quem levou a fatídica notícia, naquela tarde ensolarada de dezembro, aos amigos Zé Coco, Felipe Cana Doce, Lunguinho Frajola, Tibada e Zé Pevide, no fim da feira de Curiapeba, num sábado, isso após as arengas do prefeito Walcírio Toneleiros Waluá, que pedia votos, quase que num corpo-a-corpo, para os seus candidatos, Antonio Polissílabo Saraiva e Wasculatório Toneleiros Waluá (vice). Após uns anos fora da política, Antonio Polissílabo Saraiva pretendia voltar ao cargo de prefeito, segundo ele, para dar continuidade às obras espetaculares que o atual alcaide levava a cabo em Curiapeba. Os turistas do sul espalhavam-se por toda a cidade (para terror dos curiapebanos), sempre guiados por Maninha de Matos Sampaio, a maior propagandista das belezas da Chapada Diamantina baiana, fotografando exaustivamente todos os moradores, relevos e casarões assombrados da região. Maninha se encarregava de arrumar dados novos para o seu próximo livro. Dessa vez, a socióloga emproada e sabichona procurava informar-se sobre pássaros (em especial o pássaro sofrê), borboletas, batráquios, aranhas, rodoleiros, peixes, morcegos, tanajuras e outros bichos vertebrados e invertebrados da redondeza.

Um barbudinho temperamental, de calça frouxa, fedendo a suor e de óculos fundo de garrafa, da USP, caminhava apressado pelas vielas estreitas e morros próximos à cidade. Queria ver tudo e tudo anotar no seu caderninho ensebado. Pagava bom preço a quem lhe desse informações de um beija-flor do lugar que, segundo notícia que teria sido ventilada pelo historiador Roniwalter Jatobá, com base em dados de uma Universidade Londrina, só existe na Chapada Diamantina, precisamente em Morro do Chapéu, às margens do rio Ferro Doido. Outro, esse um grandalhão desengonçado, com cara de holandês, dinamarquês ou sueco (como é que vou saber sua procedência), queria conhecer mais e mais a respeito do verdadeiro oásis composto por trinta e oito quilômetros quadrados, que se esparrama ao deus-dará, pelos sertões baianos, cobertos por múltiplos verdes, corredeiras, cachoeiras, cânions, montes, serras e vales imensos, cobertos de flores, pássaros e animais de todas as vicidades, onde ficam o famoso Poço Encantado e a tão cobiçada Cachoeira da Fumaça. Maninha de Matos Sampaio, velha conhecedora da região, não parava de falar, gesticular, fumar e enaltecer as belezas da terra. Chegou mesmo a dizer, sem a menor cerimônia desse mundo, que a Chapada Diamantina baiana era a região mais bonita e bem aquinhoada por Deus em todo o território nacional. - menos, Maninha, bem menos!...

Como eu ia dizendo, a cabroeira estava sentada no Bar do João Emílio Krauser, ali na Praça das Boiadas, perto da Igreja de Senhora Sant’Ana, e engoliam alentados tragos de chica-boa, amansa-corno, catilóia e outros destilados, sempre acompanhados de tira-gosto, como torresmo, carne assada, grão de galo (receita levada do Bar Diana, de Santo André), ou fumegantes cumbucas de sarapatel, especialidade da casa (gostosura!...), servidos por João Emílio Krauser, Dona Patroa e Samanta. Foi aí, que entrou João Cachorro com ar compungido e foi logo dizendo, com voz fina, esganiçada:

– Boa tarde, minha gente!... Vocês sabem quem está nas últimas?...

– Quem!... Quem!... – perguntou assustado Felipe Cana Doce.

– Véi Corme Theobaldo – disse João Cachorro, com ar de mistério.

– Mas como?... Logo Véi Corme Theobaldo?... – murmurou Ti Bada

– Véi Corme agora é crente – emendou Lunguinho Frajola.

– Sim. Ele agora pertence à “Igreja Jesus Virá, Aleluia!...” do pastor Genocídio Geronso Garrafino – exclamou Zé Coco.

– Pois é, continuou João Cachorro, de uma hora para outra o homem começou a sentir-se mal. Levaram ele até ao médico e o mesmo disse tratar-se de ferrugem nos ossos.

– Como?... Ferrugem nos ossos?... – inquiriu Felipe Cana Doce, ingerindo um resto de catilóia que sobrara no copo.

– Pois é, continuou João Cachorro. Eu também fiquei pasmo com a notícia. Segundo me falou sua nora, Ritinha Cambuquira Saruá, o homem começou a sentir dores por todo o corpo, isso ao deixar a bebida e se entregar de corpo inteiro a Jesus. Quando não mais suportava a leseira, foi ao médico de quem ouviu tratar-se de ferrugem nos ossos, apanhada depois que Véi Corme deixou de beber cachaça e passou a beber apenas água, leite de cabra e a “palavra de Deus”.

– Deus me livre de beber água, leite e especialmente a “palavra de Deus” – disse Lunguinho Frajola, fazendo o sinal da cruz. Eu bem que aconselhei Véi Corme a não entrar pro diabo daquela igreja.

– Taí, argumentou Zé Pevide. Onde está agora o Deus da “Igreja Jesus Virá, Aleluia!...”, que não limpa os ossos de Véi Corme?...

– O médico falou que ele só ficará bom de verdade se voltar a beber.

– Eu acho que é o melhor que ele deveria fazer, se escapar dessa – disse Zé Pevide.

– E o que ele pensa?... – interrogou Zé Coco.

– Ora, ora, o fanatismo do homem é tanto, que prefere morrer a abandonar Jesus – argumentou João Cachorro, baseando-se na notícia dada por Ritinha Cambuquira Saruá.

– Então que morra e vá pro inferno o mais rápido possível, levando consigo Jesus e toda a cabroeira do pastor Genocídio Geronso Garrafino – arrematou, colérico, Zé Pevide, que fora acompanhado pelo resto dos presentes em coro:

– Morra, Véi Corme!... Morra, Véi Corme!... Morra, Véi Corme!... E vá pro inferno com sua igreja e seus pastores.

Toca Filosófica, 02/08/2004 (Inverno)

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A CASA ASSOMBRADA

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A CASA ASSOMBRADA

O homem viajou todo o dia por uma estrada poeirenta e às vezes deserta, onde só se ouvia o ruído dos seus próprios passos e o grito dos passarinhos. De vez em quando topava com uma ou outra casinha de beira de estrada, algumas fazendas, tropas de burros; carros de bois, etc. O homem era magro, muito magro, ossudo, de cara pardavasca e brocada de bexiga. Chamava-se Davino Ventania e se dirigia para os garimpos do Gentil do Ouro, em busca de dias melhores, pois a seca inclemente lhe havia torrado os roçados.

Saiu da fazenda Rabo-de-Peixe, no extremo leste de Curiapeba e já caminhava há dez dias. Achava-se enfadado e tinha vontade de deitar, descansar o corpo moído do estradar. Ao pôr do sol, deparou-se com uma velha casa abandonada na beira de um rio. Tinha um aspecto senhorial, em que não era difícil perceber os traços de nobreza, de fidalguia do seu passado. Ao lado, os vestígios da senzala e de um engenho, alguns velhos coqueiros, mangueiras, frutas-pão, abacateiros, jaqueiras e outras plantas da região.

O homem entrou na residência por uma porta arrombada. Como estava com muita fome, fez um fogo no desativado fogão de lenha, assou carne, comeu, bebeu água, pitou um bom cigarro de palha, armou a rede e deitou-se pensando em ficar por ali alguns dias. Tomar banho no rio, lavar a camisa, colher algumas frutas e, após um bom descanso, seguir viagem. No meio destes pensamentos, caiu no sono. Um sono pesado, que o apagou imediatamente. O homem roncava, de boca aberta, num sono profundo, reparador, quando foi despertado por um grito sinistro, apavorante, que se fez ecoar na vastidão silenciosa da casa. O homem acordou sobressaltado, sem saber a princípio onde estava e com o coração aos baques. Após pensar um pouco, orientou-se e saiu às apalpadelas em direção ao fogão, a fim de avivar o fogo, porém as brasas se achavam apagadas e o fogão cheio de poças d’água, como se houvesse chovido por ali. Davino Ventania, que não era um covarde, voltou para a rede e tentou pegar no soro. Nisso, ouve gritos do lado de fora, ao lado da casa, abre a janela e nada vê, porém as vozes continuam ouvidas embora não entendidas. Um cão latia e uivava na porta da cozinha, uma rês agoniada berrava ao longe e uma porca com uma manada de bacorinhos passou por dentro da casa, aos seus pés, deixando um pestilento cheiro de azedo.


Os cabelos de Davino se arrepiaram e aí o homem passou a ouvir um rumor de sinos tocando finados e um desesperado arrastar de correntes, que dava voltas à casa, e uma voz autoritária, com forte sotaque lisboeta que dizia, de maneira colérica:

– Vamos, negros desgraçados, puxem esta almanjarra, moam estas canas!...

– Cruz credo!... – disse Davino desarmando a rede, apanhando os trens e abandonando a casa imediatamente. Ao sair no terreiro, vê à sua frente uma procissão de pessoas vestidas de branco, todas com tochas acesas, que engrolavam uma espécie de oração que não era entendida por Davino. Na cancela, uma cachorra preta, acompanhada de alguns filhotes, investiu contra o homem, quase lhe abocanhando o traseiro.

O estradeiro, quase a correr, abandonou a fazenda e viajou por uma estrada deserta, escura e silenciosa, onde só se ouvia o grito dos curiangos: “Curiango!... Curiango!...” – e outros viventes noturnos.

No dia seguinte, muito esfalfado, ao chegar a uma fazenda e relatar o acontecido ao fazendeiro, ficou sabendo que a tal fazenda pertencia a um português do tempo da colonização, homem mau, que mandava judiar de seus escravos até a morte e que, após ser ele assassinado por um negro numa emboscada, a fazenda tornou-se um sítio mal-assombrado, onde não ficava ninguém e aconteciam as mais incríveis estripulias e, bem por isso, era evitada pelos moradores da região, mesmo durante o dia, com o sol a pino.

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O VELHO E O CÃO

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O VELHO E O CÃO

Bithu nascera nos arredores de Curiapeba, filho de pequeno pecuarista e desde os verdes anos ajudara o pai, o velho Nestor de Jesus Malhado, nas lidas diárias. Ora enchiqueirando as cabras, ora pastoreando o gado, ora plantando sisal, feijão, milho, melancia e tantos outros produtos para o sustento da família. Parte dessa lavoura, como o sisal e a cana caiana, era vendida para os usineiros da redondeza e o restante se destinava a feira de Curiapeba, aos sábados. O certo é que Bithu, que vinha dos Jesus Malhado, velha família de há muito radicada na Chapada Diamantina baiana, com alguns mortos na Guerra de Canudos, era um homem queridíssimo no lugar, cumpridor dos seus deveres. Após criar uma família numerosa, resolveu aposentar-se por conta própria, sem nenhuma remuneração por parte do governo. Com todo o tempo a seu favor, morando perto da cidade, ia sempre à praça, ver os amigos, disputar as ruidosas partidas de dados, brigas de galos, de canários-da-terra, corridas de jegues, etc. Dali, foi um passo e logo começou a freqüentar o Cabaçú, lugar de mulheres da vida, que fica ali, atrás do Cemitério e perto do Bar do João Emílio Krauser, na Praça das Boiadas, onde embarafustava-se com políticos e cachaceiros inveterados, como João Cachorro e Felipe Cana Doce. Foi ali que jogou alguns papos fora com o prefeito Antonio Polissílabo Saraiva, que também engolia de vez em quando umas doses de catilóia e era um excelente papo, sem aquela empáfia medonha do seu vice Wasculatório Toneleiros Waluá, catolicão inveterado, metido a besta, que não se misturava com a gentinha do lugar e de quem diziam as más línguas que, depois de ter terminado o namoro com Ovadia de Jesus Jambeiro, passou a se esfregar com garotões, só que em Salvador, para onde se deslocava quase que em todos os fins de semana.

Na época, Maninha de Matos Sampaio já vivia às voltas com seus livros e já deixava antever a figura de proa que iria se tornar, não só como escritora, bem como política. O nome de Maninha mais tarde se tornaria uma legenda, conhecido não somente em Curiapeba e adjacências, como também em Salvador e São Paulo, onde estudara e conhecera o seu futuro marido, Zito Borborema, como também no restante ao Brasil e do mundo. Basta dizer que depois do lançamento de “Sertão: Com Destaque ao Pássaro Sofrê e Outros Bichos Vertebrados e Invertebrados da Chapada Diamantina Baiana”, traduzido para mais de 20 línguas, passou a ser solicitada para lançamentos de suas obras em Roma, Nova Iorque, Tóquio, Madri, Lisboa e tantas outras cidades importantes do mundo. Mesmo assim, Maninha, que aparentemente era um tanto emproada, nunca perdeu o contato com a sua gente e sua terra, de onde arrancava o embasamento para os seus escritos.

Bithu, ao se aposentar e passar a freqüentar esses lugares, começou a degenerar-se, isso para espanto da família, que se via em palpos de aranha com as presepadas que o homem aprontava. Jorginho, filho do meio, perdera a conta de quantas vezes fora buscar o pai bêbado, no seu ronceiro carro de bois, isso após aprontar memoráveis banzés pela cidade. A velha Mercedes, que era cardíaca, de tantos desgostos, num dia de Reis, após a visita dos Magos, começou a sentir-se mal, com falta de ar, pôs a mão direita em cima do peito flácido e, num grunhido tenebroso, entregou a alma a Deus-Nosso-Senhor-Jesus-Cristo, isso após presenciar um ato de grosseria praticado pelo marido, contra Peixotinho, Alferes da Folia de Reis que segundo o velho, espichara os olhos gulosos em cima dos dois peitinhos da sua caçula, Marinice, que se tornava mocinha e era o ai-jesus do velho Bithu, que sempre lhe fazia os gostos e lhe trazia da rua o mais gostosos dos pés-de-moleque ou o mais alvo e suculento docinho de coco baiano, tudo para a sua filha do coração. Bithu, conforme o tempo passava, aprendia novas presepadas na rua, nos puteiros, nas rinhas de galo, no Bar do João Emílio Krauser e não fazia a menor cerimônia em deixar vazar em casa e mesmo na boca do povo todo esse arsenal de safadezas.


Toda a Curiapeba só falava nos desmandos de Bithu, que caíra em desgraça junto à molecada, que lhe azucrinava sempre que o via.

Tinha a família um grande cachorro preto, Navio, muito manso, que não suportava ver o dono bêbado e logo partia contra ele, com ferocidade de lobo. Parece que chegava a adivinhar quando Bithu estava de porre e se punha a uivar, rosnar e ladrar com violência. A princípio, apenas não aceitava os seus agrados como no passado, porém, com o passar do tempo, conforme aumentavam os porres, o cachorro passou a atacá-lo de verdade e, por mais de duas vezes, chegou a morder-lhe o braço quando se movia em sua direção.

Bithu, para agravar a situação, passou a andar com um grande punhal cangaceiro. O subdelegado Bundinha Trombetas sabia de tudo, mas como Bithu era seu contraparente e o julgava inofensivo, nunca o abordara com o pressuposto de tirar-lhe a arma. Mesmo porque outros cabras também andavam armados em plena luz do dia e por toda a Curiapeba. Até mesmo em dia de feira, quando os soldados tentavam pôr um pouco de ordem no lugar.

Num sábado, ao chegar à casa, já tarde da noite, quando todos já estavam dormindo, foi recebido por Navio que, ao sentir o cheiro da catilóia exalado do velho, investiu contra ele com ferocidade nunca vista. A principio, rasgou-lhe as calças, a camisa, os braços, depois passou a investir em direção ao rosto do homem. Bithu, vendo a coisa feia, travou uma luta mortal com o cachorro. Navio apoiou as pernas traseiras no chão e pulou de encontro ao rosto do velho, num visível sinal de quem pretendia esganá-lo através de violentas bocanhadas na carótida. Nisso, Bithu puxou do punhal e esfaqueou a barriga do animal com golpes mortais, levando o cachorro a desistir do seu intento e cair esvaindo-se em sangue. Bithu, por sua vez, também banhado em sangue, tombou exausto, para dar por si no dia seguinte, quando uma nesga de sol esquentava-lhe a cara desfigurada.

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CLAVICÓRDIO TENÓRIO SUÍNO DOS OVOS SUJOS

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CLAVICÓRDIO TENÓRIO SUÍNO DOS OVOS SUJOS

Clavicórdio Tenório Suíno dos Ovos Sujos, homem branco, de perfil alongado e nariz adunco feito ave de rapina, era alto, de pouca fala, olhos verdes, frios como uma chapa de mar remansoso. Diziam as más línguas que seus ancestrais surgiram na região de Curiapeba, por ocasião dos últimos ribombos dos canhões do General Artur Oscar, destruidores do povoado de Canudos, lá pelos idos de 1897, vindos da Paraíba, de onde fugiram após assassinarem premeditadamente, num dia de feira em Campina Grande, uma família inteira de matutos seus vizinhos, tudo por causa de um infamante apelido, que eles mesmos não sabiam da origem.

Clavicórdio nasceu numa Curiapeba ainda marcada pelos estigmas do Conselheiro e sua cabroeira medonha. Seu pai começou, depois das chacinas do povoado beato, como vaqueiro da Fazenda Surucucu. Com o tempo, demonstrando seu bom comportamento, casou-se com Ana Tintol, filha única do patrão, seu Jubelino Tintol, e aos poucos foi tomando a frente da fazenda. Após a morte do sogro, torna-se dono absoluto daquele mundão de terras às margens do Rio Canjica. Quando Clavicórdio nasceu, já encontrou o velho muito rico e tratado pelos vizinhos de Coronel Sidraque. À boca pequena, tinha aqueles que acrescentavam: Sidraque Tenório Suíno dos Ovos Sujos.

Clavicórdio, homem sábio e diferente dos seus ancestrais violentos, em vez de matar e morrer por causa de um apelido, fez o contrário. Foi à Paraíba, informou-se a respeito do apodo e, ao chegar a Curiapeba, passou a alardear pelos quatro cantos da redondeza o inusitado do seu nome. Mandou imprimir na Bahia alguns cartões vistosos, onde se via um couro de bode encimando o cartão e o seu nome em letras gordas, retorcidas, feito chifres de pai-de-chiqueiro, com os seguintes dizeres:


E assim a origem sanguinária do passado, que provocou muitas mortes e desavenças em boa parte do sertão, se tornou conhecida até no estrangeiro, graças à tenacidade de Clavicórdio como criador de bode e curtidor de couro. Foi aí que adquiriu outras terras, a partir da Fazenda Tuiuiu, Bodirama e Moquifo, e as encheu de cabras de todas as raças, das quais aproveitava, o leite para o queijo e a pele preciosa para exportação, sem contar a carne deliciosa, que fornecia para açougues da região, até Salvador e Aracaju.

Toca Filosófica, 04/03/1996

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