sábado, 27 de outubro de 2007

JUSTINIANO CABORÉ RETORNA À TERRA NATAL

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JUSTINIANO CABORÉ RETORNA À TERRA NATAL

Depois de muitas lutas, sofrimentos mil, aprendizagens, amores frustrados, muita falta de dinheiro, exposições e glórias em várias partes do mundo, já pintando os primeiros fios de cabelos brancos nas têmporas e na barba, Justiniano Caboré retornou em definitivo para Curiapeba, sua terra natal, que segundo disse alguém, para onde jamais se volta, “pois ela não existe a não ser nas nafetalinas da memória”, onde após morar por alguns meses no Hotel Toco Preto & Barinova, adquiriu uma velha casa na praça das Boiadas, número 27, ali pertinho da barbearia Sol à Pino, de Anacleto Pereira Sampaio, reformando – a à seu gosto e se instalando nela, de mala e cuia, com seu atelier. Fazendo logo amizade com outros pintores sulistas, radicados em Curiapeba, tais como o João Alberto Tessarini e Cecília Verdemate Beatrix Alighieri e Baipendi, apaixonados pela cultura sertaneja. Ambos vindos de São Paulo, porém perfeitamente adaptados aos modos simples e às vezes rudes dos sertões baianos, os quais copiavam nas suas telas de grandes reverberâncias, que eram disputadíssimas pelos marchands e galerias do Sul do País e do exterior.

Justiniano Caboré, que fora discípulo de Carybé e de quem se percebia grande influência em suas telas, a princípio percorrera todo o Brasil em busca de reconhecimento para sua arte, inutilmente, até que se mudou para a Europa, primeiro para Barcelona, depois para Paris, onde conhecera grandes mestres das Artes, tais como o pernambucano Cícero Dias e o cearense Antônio Bandeira, por quem tinha grandes considerações e relembrava sempre dos seus dias de boêmia, intensa, na Rive Gauche, junto a outros tantos latinos-americanos em busca de glórias. Se tornara amigo de Picasso, Miró e outros com os quais se enfronhara. Por lá, mostrara os seus trabalhos lambecados de verde e amarelo, cheios de sol e exotismo. Seus cangaceiros, suas flores tropicais, de múltipla coloração, seus cactos, ossadas de animais tombados pela seca, urubus, mandacarus, paus – de – arara, retirantes, etc. Vendera muitos quadros na Europa, inclusive um para a rainha da Inglaterra, que lhe tecera elogios, elogios estes, que lhe rendera divisas, comentário nas gazetas e muitos dólares na conta bancária.

Caboré era um apaixonado pelo “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, e esboçava seus personagens plásticos, arrancando – os quase que diretamente das páginas trágicas do grande “Livro Vingador” da literatura nacional. Alguns desses quadros se acham espalhados pelos grandes museus do mundo, tais como o Jeu de Paume, d`Orsay, ambos de Paris, o Museu de Arte Moderna, de Nova Yorque, Museu de Arte de Filadélfia, Museu de Arte Moderna, do México, ao lado de Siqueiros, Orozco e Diego Rivera. Outros estão pendurados em paredes do Museu de Arte Moderna, de Barcelona, juntinhos com os belos quadros de Ramón Casas, entre outros museus do mundo e quase que desconhecidos entre nós brasileiros. A não ser em algumas coleções particulares, de ricassos que o conheceram na Europa, como o coronel Jorge Tigre, de Curiapeba, fazendeiro de bom gosto, que patrocinava as artes na região.

Justiniano Caboré, assim que se instalou na cidade, num período de quaresma, viu pelas ruas uma procissão do Senhor Morto, que lhe marcou muito e mais que depressa, obedecendo à inspiração, se pôs a trabalhar em uma espécie de Santa Ceia Cabocla, constituída de vários quadros, que totalizariam os traços da via – crucis e onde o personagem central era um Cristo preto, de olhos vermelhos, beiços proeminentes, musculatura de aço e cabelos pixaim, que as vezes se travestia de cangaceiro, Zumbi e outras, como na cena da crucifixão vestindo uma decotadíssima calçola de mulher, rosa – choque, enfeitada de debruns, que lhe deixava o corpo cheio de curvas efeminadas e duas borboletas azuis, graciosamente pousadas nos bicos dos seios protuberantes, por cima do califon. Ao serem expostos estes quadros no salão Lavras Diamantina, da cidade (com a presença do Prefeito Perfídio Brotoeja Codorniz, do Presidente da Câmara, vereador João Kusowisky, do padre Joaquim Torres Barrada, do Pastor Genocídio Geronso Garrafino, do jornalista Aristarco Vieira de Melo, da escritora Maninha de Matos Sampaio, dos advogados Antonio Polissílabo Saraiva, Walcírio Toneleiros Waluá, Wasculatório Toneleiros Waluá, do compositor, poeta, historiador e sanfoneiro Talinho Malino de Menezes e até dos caribenhos Artúrio Quiroga y Orozco e sua mulher, Dona Berenice Orozco Villas, que aparentemente vieram prestigiar o desconhecido pintor recém – chegado. Os quadros de Justiniano Caboré começaram a causar mal – estar desde o primeiro dia, quando o presidente da Câmara, vereador João Kusowisky, que pertencia à cúpula da igreja Jesus Virá, Aleluia!..., de cenho franzido aproxima – se do pintor, que dava uma entrevista coletiva e pergunta:

- Seu Justiniano Caboré (que nome, hein?...Se vê cada uma!...) como é que o senhor se dá ao luxo de exibir uma obra tão sacrílega como essa, em ambiente público, e além do mais, em uma cidade extremamente religiosa como Curiapeba?...

Justiniano Caboré, um pouco assustado, encara o homem e diz, rematando a gozação em cima do seu nome:

- Pois é, vereador, em matéria de nomes esquisitos estamos empatados. Veja que o seu nome também não é uma belezura, soletrou pausadamente: Ku so wis ky... Sim sinhô... Quanto à minha pintura não vejo nada de mais nela, que a desabone, nobre vereador.

- O senhor ainda diz não ver nada nela que a desabone, seu Caboré?... Seus quadros beiram ao deboche, ao acinte. São trabalhos indignos de serem expostos neste ambiente público da mais alta reputação.

- Não os vejo assim, senhor Kusowisky. Tenho exposto meus quadros em várias partes do mundo. Reconheço que sou dono de um estilo forte, irreverente, mas mesmo assim nunca tive o privilégio de ser censurado. Pelo contrário, os meus trabalhos tem provocado os mais calorosos elogios e ganhado prêmios mundo afora.

- Vejo que o senhor, que saiu daqui pequeno, ainda não se deu conta que, esta cidade, extremamente religiosa, não compartilha com as suas pornografias, de extremo mau gosto. Vou solicitar ao prefeito Perfídio Brotoeja Codorniz, em nome dos bons costumes e da moral, que providencie a retirada da sua exposição deste lugar. A fim de resguardarmos a pureza e inocência da nossa gente.

Disse isto e virou as costas, não esperando a réplica, por parte do pintor. Indo à tarde ao gabinete do prefeito, onde expôs seus pontos de vistas, que não foram levados à sério pelo alcaide, que disse não ver subversão nenhuma ou pornografia na obra de Justiniano Caboré. A seu ver, motivo de honra e orgulho para a cidade, que em parte, vive do turismo, e o pintor atraíria muita gente endinheirada, sedenta por arte e pessoas famosas. O que não convenceu o vereador, que tratou de se encontrar com outros colegas de partido, como o Dr. Athanázio Valovelho Clepaúva, Bombardino Pitomba e Panflório Obvilaqua Valovelho Clepaúva (todos da bancada da UDN). À noite foi a igreja Jesus Virá, Aleluia!... e num culto fervoroso, aleluiado, e carregado de fogos do inferno, (pondo em prática os conselhos do Dr. Athanázio), conclamou a sua gente a se revoltar numa cruzada evangélica a fim de destruir o diabo que estava ali na cidade, na pessoa do tal pintor. Isso poderia ser feito com a depredação dos trabalhos de Justiniano Caboré, expostos no salão Lavras Diamantina, que poderiam ser queimados em praça pública pelos fiéis, que no dia seguinte, quando Caboré dava uma entrevista, arrodeado de jornalistas e curiosos, invadiram o salão e como uma avalanche medonha, começaram a destruir quadros, móveis, instalações e armados com a bíblia e hinários, atacaram o pintor, batendo – lhe na cara, na barriga, nos braços e na cabeça. Os irmãos, dominados por um frenesi coletivo, berravam:

- Sai daqui, espírito maligno, enviado do diabo, e vai para as profundezas do inferno, que é o teu lugar.

- O sangue do Senhor tem poder!... – gritava insistentemente, uma senhora, toda vestida de preto e cabelos esvoaçantes, maltratados.

Outros, mais agressivos, brandiam a bíblia na cara do pintor e se esgoelavam, como se tomados por uma força estranha.

- Retira – te desta cidade, espírito imundo. Aqui reina o Senhor!...

- A coisa quase fora de controle só não ficou pior, porque os guardas da Prefeitura, ao vêem o pintor apanhando, entraram em cena, evacuando o salão e levando o artista para outra dependência. Diante dessa ameaça exemplar, que fora contemplada, por vários jornalistas, Justiniano Caboré, passou a ser entrevistado com assiduidade. Virou notícia dos mais diversos jornais nacionais e estrangeiros. Seus quadros, até ali desconhecidos, tornaram – se popularíssimos, e o pintor, de uma hora para outra, se tornou uma celebridade e um dos mais famosos homens de Curiapeba, em todos os tempos, e o vereador João Kusowisky, que não se reelegeu, mudou – se da cidade, a fim de não presenciar a glória do pintor ateu, que em matéria de arte, passou a ditar as ordens, País afora.

Toca Filosófica, 27/11/2006

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ARISTIDES THEODORO VISTO PELA CRÍTICA

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ARISTIDES THEODORO VISTO PELA CRÍTICA


Ontem, em minha escrivaninha, visitei o Nordeste Brasileiro, “atraída pela beleza da região diamantífera baiana”. Estive em Curiapeba, a fim de visitar uma igreja muito curiosa, a de “Jesus Virá, Aleluia!...” Não sei se você conhece, fica ali na Praça das Boiadas. Enfim, gente curiosa essa de Curiapeba. Diverti-me demais com o João Xexéu “martelando seu Luiz XV” pelas ruas, rumo ao sertão alto.

Tem de tudo naquela cidade, mas senti falta de alguém, amigo. Não encontrei você. Andei por todas as ruas, praças e cantos. Perguntei aos moradores, aos personagens (não deixei de passar em frente da venda da negra Ostoporina Suspirova, para ouvir os desaforos do papagaio falador, é claro).

Que distração a minha. Depois de tanto andar, percebi que você, meu caro Aristides Theodoro, estava sim, lá. Não em um canto apenas, mas em todos os lugares, nos personagens, nas situações e nas brigas de jagunços, que a toda hora acontecem naquela cidade.

Guardei você na estante da minha escrivaninha. Certa de que, toda vez que estiver à procura de bons causos sertanejos e estórias gostosas de ler, preciso apenas ir até lá e contar com você.

Jô Barranova (Por e-mail)


“Aristides Theodoro tem excelente verve como contista”

Zanoto - Correio do Sul - Varginha, 12/07/2005


“Seu texto é bem humorado, mesmo quando ácido. Devido sua sinceridade, Aristides Theodoro tem criado alguns inimigos, mas ele parece não levar isso em consideração”

Hildebrando Pafundi - A Voz de Mauá, 14 de agosto de 2003


... “a obra de Aristides Theodoro é boa, competente, merece ser lida, debatida e criticada (no melhor sentido do termo)”

Gilberto Tadeu de Lima - A Voz de Mauá, 15 de maio de 2003


Aprecio o estilo simples, despojado, com que você conta causos de grande interesse humano, ambientados no velho sertão de guerra.

Manoel Onofre Júnior – Natal - RN


O seu cangaceiro está me encantando, ao contrário do que me solicitou, que não me assuste. Curiapeba está entrando, em definitivo, para o mapa do meu mundo imaginário, que é o único verdadeiro. O resto é ilusão de fantoches.

Nelson Hoffmann – Roque Gonzáles – RS

Você esta dando rumo certo para a temática curiapebana.

A Igreja Jesus Virá, Aleluia!..., o pastor Genocídio Geronso Garrafino, o Bernardo Tremembé formam uma trempe e o fogo atiçado pelo Aristides deu um colorido especial ao conto que merece ser lido e ser aprovada sua publicação pelos representantes do Santo Ofício.

Valdecírio Teles Veras – Santo André - SP


Th, saúde, paz e tudo mais que um Curiapebano desejar pode.

Jô Barranova disse (A Voz de Mauá, 16/12/05) pura verdade. Curiapeba existe além da ficção de Th. Se nada mais justificar a tua presença na ficção nacional – penso ao contrário – Curiapeba permanecerá, a exemplo de Macondo, Antares, etc.

O pessoal de lá têm consciência disso. Em caso afirmativo, já é hora de alguns vereadores irem cuidando de apresentar uma proposta mudando o nome de Utinga para Curiapeba.

Felizes festas e novo ano com disposição... E também tesão... Para criação literária, oxente!

Abraços do Possy.
Antonio Possidonio Sampaio – Santo André – SP




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AI, JESUS, ARRASOU!...

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AI, JESUS, ARRASOU!...
Para meu irmão Juvenal Teodoro

Véspera de Natal. A pequena Curiapeba regurgitava de gente. Os filhos dos coronéis do sisal voltavam de Salvador e de Aracaju, para as merecidas férias de fim de ano. Os turistas do Sul, em visitação ao Nordeste, atraídos pela beleza da região diamantífera baiana, queriam tudo ver. Maninha de Matos Sampaio, que já havia feito um trabalho de pesquisa e relevo sobre as religiões do Brasil, coletando vasta documentação em Curiapeba, agora escarafunchava todos os becos em busca de Centro Espírita, Mesa Branca, Casa de Xangô e o Diabo-a-quatro. Sempre acompanhada por uns tipinhos barbudinhos, mal vestidos, temperamentais, da USP. O certo é que Curiapeba ficava muito agitada durante esses meses de fim de ano. Tudo era visto, fotografado, esmiuçado. Uns tais de brasilianistas, que se encantaram pelas festas populares do sertão, queriam saber tudo a respeito das catiras, dos fandangos, dos baiões e dos reisados.

Um certo Bill William, da Universidade de Nevada, resolveu protelar a sua estadia na cidade até o início do ano novo, a fim de ver o reisado, que teria início no dia 6 de janeiro. Bill, com seu português estropiado, entoava trechos da música de folia de reis, sempre comendo frases inteiras da letra:

"Oh de casa, oh de fora, Santo Reis aqui chegou, ai, ai, meu Deus! Santo Reis aqui chegou, ai, ai!..."

Isso tudo para chalaça dos curiapebanos, que não perdiam a oportunidade para imitar o passo desengonçado e a voz ridícula do gringo.

Os padres Cosmorâmico Canindé e João Tracajá se desdobravam nas suas atividades paroquiais, pedindo donativos para as festanças que se aproximavam. Walcírio Toneleiros Waluá, um dos melhores prefeitos de todos os tempos, transformava e promovia Curiapeba em uma das cidades mais promissoras do Estado, seguindo os passos do seu antecessor, Antonio Políssilabo Saraiva, que deu início à nova era em Curiapeba. O certo é que tudo crescia e prosperava a olhos vistos e cada morador se orgulhava de sua cidade, mesmo aqueles que fizeram campanha contra a candidatura de Walcírio Toneleiros Waluá, caso do jornalista Aristarco Vieira de Melo, de "Os Sertões", que aos poucos, por não ser um sectário, um dono da verdade ainda reticente, já via com bons olhos a administração do novo alcaide.

Foi numa dessas manhãs de domingo, festiva e ensolarada, que João Xexéu, recém convertido à Igreja Jesus Virá, Aleluia!..., após assistir a um culto fervoroso e aleluiado, dito pelo pastor Genocídio Geronso Garrafino, foi ao banheiro (infelizmente, ao masculino) retocou a pintura, o rímel dos olhos, arrumou a bolsinha inseparável, segurou a "Palavra de Deus" graciosamente entre a ponta do fura bolo e o mata piolho e saiu do templo do Senhor, queimado de fé, com seus passinhos graciosos, que até fazia lembrar uma dama da alta sociedade. Xexéu era uma graça na sua calça preta de laicra coladinha ao corpo, sua blusinha amarela fosforescente, de generoso decote e os sapatos Luiz XV, um arraso para o lugar. Aprendeu esses sestros quando estivera em São Paulo, onde vivera por alguns tempos numa pensão barata de bichas. João Xexéu era de família tradicional de Curiapeba. Por parte de pai, descendia dos Cambaxirra, que dera gente do naipe do velho Clitério Cambaxirra de Jesus Malhado, o famoso Cu-de-Fogo, e por parte da mãe, vinha dos Justiniano Martelete, ramos que já havia fornecido juízes, advogados e políticos carismáticos, de voz redonda, para a glória de Curiapeba. O certo é que João Xexéu, após retornar do Sul, com seu comportamento, foi rejeitado pelos parentes e, daí por diante, passou a fazer de um tudo para desmoralizá-los em praça pública. Tornou-se um revoltado gratuitamente e fazia os maiores escândalos por dá-cá-aquela-palha. Até que um dia, ao passar pela Praça das Boiadas e ouvir a gritaria dos fiéis no templo da Igreja Jesus Virá, Aleluia!..., resolveu entrar, com a finalidade de provocar um banzé memorável, e, se possível, cuspir na cara do pastor, que exortava, seus fiéis com palavras duras, carregadas de fim de mundo, de fogo do Inferno; isto entre um aleluia! e um apelo para angariar dinheiro, animais e terreno. Xexéu, a exemplo de Santo Agostinho, em Roma, ao ver Santo Ambrósio, ao topar o pastor Genocídio Geronso Garrafino converteu-se ali mesmo e tornou-se, a partir de então, um verdadeiro fanático religioso. Só que não abandonou seus velhos hábitos e trejeitos aprendidos em São Paulo. Por mais que o pastor Genocídio Geronso Garrafino o aconselhasse, não abria mão dos trejeitos; gostava um bocado das suas calças efeminadas, da pintura, do rímel (não sabia viver sem rímel). Afinal, não seria por essas pequeninas insignificância que "Deus Nosso Senhor Jesus Cristo" iria lhe fechar as portas do céu na cara.

Nesse domingo, como já foi dito, após tomar a Rua Rumo do Sertão Alto, onde morava, num sitiozinho dos pais, ouviu uma gritaria medonha ao seu lado e ao voltar-se para ver de que se tratava, deparou-se com um velho caminhão, carregado de jogadores, que gritavam em coro:

– Bicha! Bicha! Bicha!...

Outros mais atrevidos e com vocabulário mais vasto, se esgoelavam:

– Aí, xibungão! Baitola! Boneca deslumbrada! Macho-franga!...

João Xexéu, sem perder a pose efeminada, sempre nos seus passinhos bem cadenciados, deu um toque na vasta cabeleira negra, suspendeu a "palavra de Deus" de encontro aos incréus e gritou:

– O sangue de Jesus tem poder!...

Nisso, o motorista, um galalau espadaúdo e um dos mais empenhados em desmoralizar Xexéu, (afinal era seu primo), perdeu a direção do carro e foi chocar-se contra um poste da rua, esmagando a frente do velho Ford cara branca.

Aí foi a glória para Xexéu, que pondo as mãos para o céu, num gesto de agradecimento ao Senhor, pulou e gritou com voz esganiçada e estridente satisfação:

Ai, Jesus, arrasou!... Ai, Jesus, arrasou!...

Em seguida, olha os jogadores com piedoso desprezo e sai com seus passinhos miúdos, cadenciados, martelando com seu Luiz XV as pedras mal lapidadas do calçamento, em rumo do Sertão Alto, onde ao chegar em casa, dobraria os joelhos em terra e agradeceria ao senhor pela vitória.

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GENTE DE CURIAPEBA

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GENTE DE CURIAPEBA

Ovadia de Jesus Jambeiro, filha caçula do velho Clitério Cambaxirra de Jesus Malhado, o Cu de Fogo, e sua mulher Dona Marieta de Jesus Malhado e Hortelã Verde, gente pobre, porém decente, de Curiapeba, trabalhava na Pharmacia Simpatia, de seu Tolentino Novaes, em plena praça das Boiadas, que fica ali, ao lado do templo da Igreja Jesus Virá, Aleluia!.., em frente a outra igreja, a de Senhora Sant'Ana e namorava o jovem advogado Wasculatório Toneleiros Waluá, irmão do conceituado advogado e contista Walcírio Toneleiros Waluá, dos escritórios Polissílabo & Waluá Advogados. Wasculatório, muito católico e recém-chegado do Piauí, onde sua família se entregava ao criame de gado zebu, era um sujeitinho melancólico, desgracioso, amarelinho, metido à moralista e extremamente religioso, que não aceitava brincadeiras de mau gosto e não permanecia por muito tempo ao lado da gentinha desbocada, fedorenta e futriqueira do lugar. Sempre detestou o povinho de Curiapeba. A seu ver, a fina flor da canalha humana, que só sabe falar mal da vida alheia, da maldita guerra de Canudos de seu cismático líder religioso, para os quais o tal não passava de um santo, do qual falavam por horas e horas, quase que em êxtase, viviam enfiados nas macumbas, que proliferavam pelos sopés dos morros, no espiritismo, e em tantos outros passatempos, que ao ver de Wasculatório, não passavam de coisas que só servem para o embrutecimento do espírito.

Wasculatório conhecera Ovadia de Jesus Jambeiro, assim que chegou a Curiapeba, num dia de grande caganeira, após comer à tripa solta, em companhia do poeta andreense João Emílio Krauser, uma buchada de bode, na casa do padre Joaquim Torres Barrada (espanhol glutão, que se apaixonou perdidamente pelos guisados e docerias regionais). O rapaz foi à farmácia Simpatia, comprar um remédio e topou com a linda moça, que o olhou com enternecimento. Daí por diante, foi um passo e os dois começaram a se gostar. Achou a menina muito bonita: alta, morena clara, cabelos compridos, rosto bem delineado, olhos negros, rasgados, sonhadores, fartos seios e um traseiro (ai, delícia!) invejável... as más línguas professoravam, quando se referiam ao causídico recém chegado:

– Vejam só, o coroinha do padre Cosmorâmico Canindé até que sabe escolher mulher, apesar da feiúra e do seu beatismo. Olhem o rabo invejável da sua namorada!...

Ovadia, todas as manhas, quando ia para o trabalho, ao passar diante da venda da negra Ostoporina Suspirova, coçava a cabeça de um papagaio falador (terror da cidade), que a negra possuía e que ficava empoleirado em um pau, preso à parede e dizia, insultando a ave faladora:

– Papagaio! Pa pa gai o do cu pelado. Dá o pé, papagaio do cu pelado, dá o pé!...

O papagaio revirava os olhos, arrepiava-se todo e não dizia nada. As vezes, olhava a moça com olhos pidões e ficava muito excitado, num verdadeiro estado de êxtase, como que a agradecer a "Deus Nosso Senhor Jesus Cristo", por tanta atenção vinda de uma verdadeira formosura como aquela.

Um domingo, ao saírem da missa das 9, todos em roupa domingueira: Ovadia ao lado de Wasculatório, Dr. Walcírio ao lado de sua esposa, Dona Délia (uma caboverdeana muito viva, muito culta, agitadora cultural e política do lugar), Dr. Antonio Polissílabo Saraiva ao lado de Dona Clotilde e do filho Tavinho que, por sinal, ciceroneavam uma talzinha de Maninha de Matos Sampaio, socióloga arrogante, emproada e sabichona, que nessa época andava às voltas com uma pesquisa de mestrado que versava sobre o fenômeno das religiões no Brasil e o poeta Moisés Amaro Dalva, recém convertido ao catolicismo, que a convite de Wasculatório, foi conhecer Curiapeba, acompanhavam os grandes da terra, que se dirigiam para o centro da praça, ao lado do coreto, onde batiam um ligeiro papo e em seguida cada qual tomava a sua direção.

Ao passarem defronte da venda de Ostoporina Suspirova, Ovadia de Jesus Jambeiro, numa atitude arrebatadora, soltou-se do braço do namorado, caminhou com passos graciosos de mulher bonita ao encontro do papagaio que fazia suas acrobacias virando e revirando-se no pau da gaiola; bateu palmas, como que a chamar atenção de todos para a sua intimidade com o louro e disse, numa entonação acentuada:

– Papagaio! Papagaio. Dá o pé, dá o pé, loro!...

O bicho, que durante anos, nunca respondeu às indagações da moça, virou os olhinhos fosforescentes e perguntou, entortando graciosamente a cabeça para um lado:

– E o cu pelado?... E o cu pelado?...

Deixando a moça em palpos de aranha e os presentes, uns rindo-se à bandeira despregada e outros, caso do poeta Moisés Amaro Dalva, a se benzerem, diante da atitude pouco dócil e imoral da ave pornográfica.

Wasculatório, por sua vez, ficou que não sabia onde enfiar a cara e ao se informar a respeito da intimidade de sua namorada com o passarinho, pôs um ponto final no namoro, pois, como bom filho de "Maria, Mãe de Deus nosso senhor Jesus Cristo" e devoto fervoroso de Senhora Sant’Ana, não iria se casar com uma devassa, uma depravada como aquelazinha, que andava de bem e a manter diálogos pornográficos com uma ave tão chula, tão nojenta como aquela da negra Ostoporina Suspirova, que vivia ali na praça pública, na maior gandaia, acintosamente a insultar, a escandalizar, a enlamear toda a gente de bem, que por ali passava.

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UMA GAROTA LIBERAL E SEU AMANTE CIUMENTO

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UMA GAROTA LIBERAL E SEU AMANTE CIUMENTO

Oscoliosa Madeira Borborinho, de ancestral família portuguesa, chegada à Bahia em 1549, por ocasião do desembarque de Tomé de Sousa, fazendo parte daquelas 1000 pessoas destinadas à construção da cidade e cúmplice também pela fundação de Curiapeba, no século XVII, quando avançavam as boiadas pelas terras devolutas do sertão. Após o primário, ginásio e colegial, bem feitos na cidade natal, nos ginásios Castro Alves e Gregório de Matos, pretendia cursar Direito, em Salvador, influenciada que fora pelo Dr. Antonio Polissílabo Saraiva, ex-prefeito e advogado bem sucedido, por sinal, seu vizinho, ali na Rua Gonçalo Alves.

Oscoliosa era bonita e desde tenra idade desejou ser uma mulher diferente de suas conterrâneas. Sempre teve admiração pelas mulheres voluntariosas, gostava um bocado da mitológica Safo, da velha Grécia, de quem aprendera, no ginásio, fragmentos de seus poemas. Lera com sofreguidão alguns romances de George Sand, Adan Bede, de George Eliot em inglês e alguns poemas de Emily Dickinson, autoras de sua predileção, e não queria, de forma alguma, ser mais uma submissa, como sua mãe, a velha Maria Verônica Madeira Borborinho e tantas outras mulheres que viviam oprimidas por seus maridos. Tinha uma certa admiração por Maninha de Matos Sampaio, embora com reservas. Achava a autora de “Sertão: com destaque ao pássaro Sofrê e outros bichos vertebrados e invertebrados da Chapada Diamantina baiana”, muito conservadora, por que não dizer, mesmo quadrarona, que só se ocupava com as belezas da região, escrever seus livros caretas, com motivos regionais, viagens e seu casamento com Zito Borborema. Com ela, Oscoliosa Madeira Borborinho, não e não violão. Isso estava definitivamente fora de suas conjecturas. Queria formar-se em Direito e ser uma mulher livre, dona do seu nariz, sem que ninguém se imiscuísse em sua vida. E foi assim que começou a colecionar namorados a esmo, sem se preocupar com posição social, cor da pele e mesmo beleza. Queria apenas que o dito cujo fosse macho e bom de cama. Namorou vários coleguinhas de classe, bem como outros rapazes da cidade. Até que se enrabichou por Mirinho Boca de Fogo, irmão caçula de Tuntunca Muquirana, músico ligado à turma de Talinho Malino de Menezes e da porto-riquenha Berenice Orozco Villas, que tentou ditar normas no âmbito cultural de Curiapeba, o que a levou a se atritar por várias vezes com o rombudo Aristarco Vieira de Melo, majorengo enfezado, que tinha “Os Sertões” como trincheira, de onde vomitava seu veneno mortal, sendo admirado até à medula por uns e detestado mortalmente por outros.

O namoro de Oscoliosa com Mirinho Boca de Fogo fora a gota d’água e a família, de há muito escandalizada com as presepadas da filha, mais que depressa providenciou a ida da fulaninha para Salvador, isso após matricular a mesma na faculdade de Direito e arrumar acomodações na pensão de Madame Frufru Vailant, ali na Baixa dos Sapateiros, num velho casarão reformado e pintado com as cores da bandeira francesa (isso sem esquecer o indefectível galo gaulês estampado na fachada). Madame Frufru era metida (embora que decadente) e não aceitava (ou fingia) qualquer um no seu estabelecimento. Dava preferência às pessoas de fino trato, que pelo menos balbuciassem algumas palavras na “peregrina língua” de Voltaire (1694-1778) e Balzac (1799-1859). Não se cansava de dizer que “naquela noite dormira com Balzac nos braços”. A seu ver, eram os dois maiores escritores do mundo, bem maiores do que Ovídio, Dante, Cervantes, Tolstoi e tantos outros grandes, a quem dizia haver lido. Foi nesse ambiente que Oscoliosa passou os primeiros meses em Salvador. Até que, injuriada com Madame Frufru, por não lhe permitir dormir com seu namorado na pensão, bateu-se em retirada, indo morar numa república, perto da faculdade. Chegou a provocar, por essa época, os maiores tendepás entre os rapazes, que se atracavam no murro e na pernada, em disputas ferozes, como cães danados, pala posse da fêmea fatal. Oscoliosa achava uma tremenda graça em tudo aquilo. Sentia-se poderosa, vendo-se como objeto de disputa entre os homens que gostavam de mulher. Logo que passou a morar na república, a cada noite dormia com um homem diferente. Os pais, quando souberam do que vinha acontecendo, foram a Salvador e tentaram dissuadi-la daquela promiscuidade, inutilmente.

Em umas férias, voltou a Curiapeba e convenceu os pais a dobrarem-lhe a mesada e, ao retornar às aulas, na capital, levou consigo o namoradinho sertanejo, Mirinho Boca de Fogo (o apelido veio pelo rapaz ter os lábios fouveiros), para uma casinha previamente alugada, na periferia de Salvador.

Os primeiros dias de casa nova e amante correram às mil maravilhas, mas como Oscoliosa nunca respeitara namorado algum, assim que voltou a estudar, passava as noites com Mirinho na cama e as tardes, após os deveres da faculdade, saía com outros rapazes pelas ruas, aos beijos e abraços, isto quando não terminavam em um quarto de hotel barato do cais do porto.

Mirinho, sertanejo desconfiado, logo percebeu que os modos da moça não lhe agradavam. A coisa ficou mais palpável quando teve de se ausentar por um dia e, ao retornar, antes do tempo previsto, para sua surpresa, encontrou a amante com um certo Pederewiski, colega de faculdade, por quem Mirinho já havia notado ter ela, uma certa queda no que era correpondida. Boca de Fogo, desse dia em diante, passou a vigiar mais de perto os passos da moça e, por ocasião de uma festinha na república, percebeu que a estudante só dançava com o tal de Pederewiski, sempre de rostos coladinhos e a se beijarem, sem nem mesmo respeitarem a sua presença, Mirinho, muito queimado com o que estava acontecendo, chamou a atenção de Oscoliosa, que ignorou os protestos do rapaz. Engoliu no balcão uma dose dupla de vermute e abandonou a festa, arrastando o novo namorado pela mão, em direção ao cais do porto, sem dar a mínima satisfação ao sertanejo, que os acompanhou de longe e viu quando os dois entraram num hotel de terceira categoria. Mirinho aguardou os amantes por mais de duas horas, até que os dois, com ar de saciedade, desceram as escadas e seguiram a orla marítima, abraçados e a se beijarem, quem sabe, prelibando a separação, onde cada qual tomaria direção oposta.

Mirinho Boca de Fogo, munido de um porrete apanhado num monte de lenha de uma padaria, esperou que o casal tomasse distância do hotel e, no momento aprazado, atingiu Pederewiski com uma cacetada monumental, arrebentando-lhe dois dentes e quebrando-lhe um braço e o pau da venta. O Apolo baiano ficou irreconhecível, em petição de miséria, lavadinho em sangue, e Oscoliosa, por sua vez, apanhou a ponto de não levantar e, quando acordou, já dia alto, com a ajuda da polícia, tinha o olho direito vazado e parte do rosto e do ventre cheios de hematomas. Mirinho, por sua vez, entrou clandestinamente num velho cargueiro panamenho, que zarpava do cais da Bahia, só reaparecendo em Curiapeba vinte anos depois, já de cabelos brancos, cheio de tatuagens nos braços, nas pernas, nas costas, e com várias histórias marítimas a contar. Por essa época os pais de Oscoliosa haviam morrido e a fortuna da família, após ruidoso arrolamento e dívidas astronômicas a pagar, evaporou-se, e a ex-moça fogosa (agora totalmente desmoralizada), que despedaçava corações masculinos, não terminando a faculdade, era uma mulher feia, envelhecida precocemente e com o olho direito vazado, nada mais lembrando aquela beldade do passado.

Toca Filosófica, 07/02/2006.

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O VAQUEIRO E O DIABO

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O VAQUEIRO E O DIABO

Foi o pé do diabo! o diabo andou por aqui!
Álvares de Azevedo

Zé Coco chegou na feira de Curiapeba logo pela manhã. Comprou os trens que a mulher lhe havia encomendado, colocou-os no alforje, amarrou-o atrás da sela, na garupa do cavalo que ficou na entrada da cidade, e voltou para a feira, precisamente para a venda de Olegário Doca, para comer água, juntamente com outros colegas, amantes da branquinha.

Ao entrar na venda, encontrou-se com Cosme Theodoro, Toroco e Felipe Cana Doce. Tomaram a princípio, algumas lapadas de chica-boa e vinho de jurubeba. Cosme Theodoro comprou um litro de querosene, café em grãos, sal, sabão, anil, alguns metros de bulgariana e retirou-se, acompanhado por Toroco e Lunguinho Frajola, debaixo de protesto dos amigos, que diziam:

Véi Cosme, é cedo ainda, home, vamo come água. Num vai agora, não.

Felipe Cana Doce e Zé Coco que estavam já calibrados, viram Timóteo Morubichumbo, Zé Pevide e João Cachorro, todos já altamente alcoolizados e redobraram as doses de chica-boa, agora misturadas com rabo-de-galo, conhaque e outros destilados.

João Cachorro, que era muito arreliento, logo começou a dizer:

Aqui, nessa cabeça-de-porco não tem homem, pois se tivesse pulava em mim, pra ver com quantos paus se faz uma cangalha.

Zé Coço, arrogante, forte e soberbo que nem uma mula, tomou a provocação na unha e deu um trompaço tão grenado em João Cachorro, que o colocou por terra.

Aí, se pôs a contar garganta e a desacatar tudo e todos. Em pouco tempo estava sozinho, os amigos fugiram antes de serem envolvidos em suas arengas. Zé Coco batia na tábua dos peitos e dizia com toda arrogância do mundo:

— Aqui nessa desgraça não tem homem que enfrente Zé Coco. Zé Coco é macho e não maxixe. Do modo que estou enfrento até o capeta, se ele quiser ver que apareça. Vem capeta, se é que você existe. Vem, vem!

A Nega Valei-me tinha uma barraca de comida na feira e se encarregou de dar uma xícara de café sem açúcar ao valentão que, após sorver o amargoso líquido, melhorou um pouco. Sentou-se num banco que havia debaixo de um pé de umbuzeiro da praça, descansou um bom tempo, montou no seu cavalo e seguiu viagem.

No lusco-fusco da tarde, precisamente ao se aproximar de uma encruzilhada, perto do Rio das Voltas, pois ia para Malhadinha, começou a sentir um forte odor de enxofre queimando e logo em seguida o tropel de um animal em disparada. O capiau ficou atento e logo apareceu à sua frente um homem branco, de olhos azuis, muito bem apessoado e puxou conversa. Falava bem e após algumas palavras, retesou-se todo, passou a soltar fogo pelas ventas e perguntou:

Você sabe quem sou eu?

Sei não, sinhô - disse Zé Coco acovardado, num verdadeiro cagaço.

Pois fique sabendo que sou o diabo, a quem você chamou há pouco, na feira de Curiapeba.

Tesconjuro — disse o matuto.

O diabo fez uma careta para o sertanejo, deu um peido, acompanhado de uma gaitada debochada e evaporou-se mata adentro, juntamente com seu cavalo negro, deixando o vaqueiro perto de um ataque de nervos e ao mesmo tempo imaginando que o diabo não é tão feio como se diz.

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COMO SÃO ROQUE SE TORNOU PADROEIRO DE CURIAPEBA

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COMO SÃO ROQUE SE TORNOU PADROEIRO DE CURIAPEBA
(de uma estória popular)

Contam os mais velhos moradores de Curiapeba, que em 1897, quando ainda reboavam nos contrafortes da Serra de Itiúba os estrondos dos canhões do General Artur Oscar, destruidores do povoado de Canudos, que o padre Giracino Bembém de Arruda Real, filho de tradicional família fundadora da cidade, juntamente com o prefeito Ciríaco Fernandes Sobrinho, também de cepa abastada da redondeza, famosa pelos latifúndios e o farto criame de gado zebu, resolveram escolher para padroeiro da cidade, São Roque, pois, além de prestarem uma homenagem ao pai do prefeito, era, segundo os dois, um santo milagreiro e muito sério.

Assim munidos de tamanho ideal patriótico, enfeitaram a cidade para o evento, aproximante. Pintaram e embandeiraram a Praça Gregório de Matos, onde fica a igreja.

Ciríaco Sobrinho, muito católico, anteviu naquela cerimónia festeira um meio de recuperar o tempo perdido e se promover junto aos munícipes e a outras cidades vizinhas: afinal se aproximava o término do seu governo inexpressivo e o alcaide sonhava se eleger deputado, pelo seu Estado, nas futuras eleições.

Após discutirem o plano no Salão Dois de Julho da prefeitura, ficou acertado que depois dos panegíricos do prefeito e do juiz, seria a vez de o padre Ciracino derramar a sua oratória barroca em cima dos fiéis. Teria de fazer um discurso comovente, político e não se esquecer de mencionar por várias vezes o nome do santo padroeiro, a fim de ficar indelevelmente gravado na mente de cada fiel. Ciríaco Sobrinho temendo que o padre, mesmo sendo homem da sua confiança, não enfatizasse como deveria o nome do santo, propôs-lhe que cada vez que o nome fosse pronunciado, o vigário ganharia a importância de cinco mil-réis. O padre, ao despedir-se do alcaide, foi para casa com aquele dinheirame na cabeça e passou a pensar o discurso que teria de ser improvisado, na melhor maneira baiana, como era do seu costume. Na hora H, após o discurso vibrante, inflamado e patriótico de Ciríaco Sobrinho e do meritíssimo Dr. Armandino Cattelão da Silva Dourado, o padre todo paramentado, subiu ao púlpito, fez uma mesura, temperou a guela, esfregou as mãos e suspendeu a direita em forma de bom declamador e irrompeu com seu vozeirão rouco e pausado:

Meus filhos, bom povo de Curiapeba, como todos nós sabemos, hoje é dia de São Roque (pensou consigo mesmo, pingou cincão no meu bolso) e assim sendo, aqui estamos nesta manhã maravilhosa, para inaugurarmos a igreja de nossa cidade, cujo patrono é o milagroso São Roque (mais cinco = dez). São Roque andou com São José e Maria, mãe do Menino Jesus pelas terras da Palestina e cada vez que o nosso São Roque pegava no serrote, para aparar uma tábua ou uma viga, se ouvia o serrote de São Roque fazer: roque, roque, roque, roque!

E assim prosseguiu o padre Giracino Bembém de Arruda Real na sua oratória redundante e repetitiva até que o prefeito Ciríaco Fernandes Sobrinho, já vendendo azeite às canadas e ao mesmo tempo assustado com a fertilidade inventiva do vigário, levantou a mão a fim de que ele parasse o discurso que já estava se tornando quilométrico e caro em demasia para os dilapidados cofres públicos da pobre Curiapeba.

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